terça-feira, 9 de março de 2010

Confissões da Anta

Sou uma anta financeira. Digo isso por falta de sinônimo adequado, sem detrimento para as antas: sei que nenhuma faria um título de capitalização, e eu fiz. Vários. Para piorar, sou uma anta lerda, que demora a perceber as besteiras que comete. No ano passado, tentando pela enésima vez por as finanças em dia, parei para estudar o extrato do banco. Espalhei a papelada na mesa, me armei de paciência, régua e marcadores coloridos, e descobri que, todo mês, o banco me descontava duas quantias fixas. Uma era a previdência privada; perfeito. Sempre me ensinaram que o ser humano deve se preparar para o futuro, embora os recentes acontecimentos do Chile e do Haiti lancem dúvidas sobre a existência do futuro.

A segunda quantia ia para um Titulo de Capitalização. Assim, com este nome e em maiúsculas, é coisa que leva jeito de aplicação séria. Mas chama-se Bradesco Pé Quente e foi comprado a pedidos da gerente, uma moça muito simpática e gentil. Pergunto: pode ser boa coisa um troço chamado Bradesco Pé Quente que o banco insiste em vender?

Qualquer pessoa medianamente idiota preferiria apostar num bolão da megasena em Novo Hamburgo. Mas antas absolutas atendem a pedidos de gerentes de banco e não lêem contratos em corpo seis. Devem, pois, arcar com as conseqüências dos seus atos.

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Fiz uns Pés Quentes no já remoto ano de 2008. Foi um excelente investimento -- para o Bradesco. Em troca de cada R$ 1 mil então depositados, tenho hoje R$ 1.005,19 e, ainda assim, acho que não posso tirar o dinheiro, visto que o título está ativo. Não sei exatamente o que o Banco entende por ativo, mas como só fala em resgate nas alternativas, suponho que continua seqüestrado.

O mesmo ocorre com um monte de Amazônias Sustentáveis de vinte reais, que compõem -- novamente suponho -- bloquinhos de cinco parcelas. Uma das características dos TCs, por sinal, é sua descrição quase criptográfica. Mas entendi que, para cada cem reais aplicados, tenho R$ 89,74. Eu devia ter investido com Bernard Madoff, como me sugeriram uns amigos lá do Country, mas infelizmente ele não aceitava bloquinhos de cinco parcelas de vinte reais. A cor do que sobrou desses bloquinhos só vou ver daqui a cinco anos, se estiver viva até lá (vide primeiro parágrafo).

Acham que é tudo? Não é não.

Também fiz um titulo de capitalização no cartão Diners. Antas são por natureza animais inocentes e fáceis de tapear; ou vocês acham que um substantivo vira adjetivo assim do nada?

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O que é que me passou pela cabeça, se é que passou, para reincidir em tamanha generosidade com banqueiros? Simples. Achei que título de capitalização era uma espécie de caderneta de poupança, apenas mais imexível do que a caderneta. As minhas amigas lá do banco afirmaram, cheias de entusiasmo, que era uma ótima coisa de se fazer com o dinheiro, porque tem sorteios semanais, mensais, anuais, qüinqüenais, sesquipedais.

Só não me informaram que, para cada cem aplicados, eu receberia de volta oitenta, o que me faria pensar duas vezes -- mas ninguém é perfeito. A culpa não é delas, que têm que vender um produto estelionatário, mas minha, que não li a letra miúda.

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Desde que descobri a verdadeira natureza dos TCs, mandei suspende-los. Mas uma coisa é entrar na roubada, outra é sair. Os do Bradesco continuam impávidos, aumentando os lucros do banco. Quanto aos do cartão, passei os últimos dias pendurada no telefone: o Diners elevou a arte de irritar o cliente a níveis nunca dantes alcançados.

Liga-se para 4001-4444. Digita-se o número do cartão, ouve-se música, digitam-se números para isso e aquilo. E quando finalmente chega-se à etapa de cancelamento dos TCs, uma gravação informa que temos que ligar para o 4001-4693. No 4001-4693, os atendentes, que sequer reconhecem o número dos cartões Diners, dado que são do Credicard, pedem diversas informações e nos mandam ligar -- para onde? Para o 4001-4444. Não é uma perfeição?!

Nem vou descrever os diálogos, porque da última vez que escrevi sobre call centers recebi emails desaforados de callcenteiros me acusando de ter feito um deles perder o emprego. Não era a minha intenção. Quem trabalha neste emprego infernal não tem a menor culpa no cartório.

Fiquei tão estressada, porém, que passei a tuitar o que me acontecia: nada como ter a solidariedade dos amigos nas horas de necessidade. Quando contei que tinha feito um título de capitalização, a gargalhada foi geral. Reconheci cabisbaixa que essa estupidez equivalia a escrever “otária” na testa com pilot fluorescente, mas pelo menos descobri que não estou sozinha. Um amigo teve três -- Itau, Bradesco e Caixa – e em todos teve perdas financeiras reais de 15%. Em suma: ou eles ganham, ou a gente perde.

É por isso que estou aqui abrindo a alma, e confessando não um pecado, que é coisa chique de atleta de ponta e político importante, mas uma burrice, que é ato constrangedor e humilhante. Sou solidária com as outras antas, e quero alertá-las contra esta armadilha perigosa. Não deixem de ler os contratos dos bancos e, sobretudo, nunca façam títulos de capitalização! Eles são um roubo e, num país decente, estariam proibidos por lei.

Em tempo: cancelei o cartão Diners, de pura raiva, mas vocês acham que consegui cancelar os TCs? Ho ho ho.

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Nunca fotografei uma anta, e um auto-retrato não seria de bom-tom, de modo que apelei para fotos de capivara. Antas e capivaras são confundidas com frequencia, mas sequer são da mesma família. Capivaras não caem em golpes do vigário; investem em CDB e em renda fixa, e têm sempre um ourinho guardado para ocasiões de emergência.

Fonte! Chasque recomendado por Mara Lucket em seu galpão virtual (blog) - http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/maraluquet/ , publicado no galpão virtual Cora Rónai (blog) - www.cora.blogspot.com, que teve como fonte O Globo, Segundo Caderno, 4.3.2010.