sábado, 30 de outubro de 2021

Canoas aprova mudanças na Previdência Municipal

A reforma previdenciária de Canoas foi aprovada pela Câmara de Vereadores. A proposta abrange três projetos de lei, um projeto de lei complementar, além de emenda à Lei Orgânica Municipal. O texto vai para a sanção do prefeito, Jairo Jorge.

A elaboração das proposições levou em consideração a avaliação de diversos cenários, sendo o apresentado aquele que demonstrou maior potencial de custeio com menor impacto para os servidores municipais e seus dependentes. O objetivo é garantir não apenas as atuais aposentadorias e pensões, mas principalmente as futuras.

Para os novos servidores que ingressarem no serviço público, a idade mínima de aposentadoria será de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres, com tempo mínimo de contribuição de 25 anos. Os proventos serão calculados a partir da média de 90% maiores contribuições - será aplicada essa média na proporção de 60%, com acréscimo de 2% a cada ano que exceda os 20 anos de contribuição. A contribuição dos aposentados e pensionistas será sobre o que exceder dois salários mínimos (atualmente, R$ 2,2 mil).

Embora esteja em simetria com as reformas realizadas nos âmbitos federal e estadual, a proposta apresenta regras mais brandas aos municipários de Canoas, em relação aos servidores federais e estaduais. "Buscou-se uma proposta justa, que atendesse aos anseios da maioria dos servidores e que possibilitasse, ao mesmo tempo, o equilíbrio nas finanças municipais e a garantia de recursos para o futuro da cidade", ressaltou o secretário municipal de Planejamento e Gestão, Fábio Cannas.

Atualmente, o déficit da previdência municipal é de R$ 170 milhões por ano. Sem a reforma, esse valor poderia chegar a R$ 247 milhões nos próximos anos. No caso do projeto de emenda que trata das regras de transição, ainda há necessidade de votação em segundo turno pelo Legislativo.

Fonte! Chasque (post) publicado nas páginas do caderno "Jornal Cidades", encartado na edição do Jornal do Comércio de Porto Alegre (RS) na edição do dia 25 de outubro de 2021.

Créditos do retrato! https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/jornal_cidades/2021/09/811208-canoas-fara-ppp-para-reformulacao-da-iluminacao-publica.html 

sábado, 23 de outubro de 2021

Municípios tem dificuldade de arcar com Previdência

TCE aponta necessidade de aprimoramento das gestões e adequação dos orçamentos municipais / Joyce Rocha / JC

A grande maioria das prefeituras gaúchas apresentou dificuldade em cumprir com os compromissos previdenciários dos servidores em 2020. Essa foi a conclusão de um levantamento conduzido pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), que traçou um diagnóstico dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) no Estado. De um total de 293 municípios que entregaram a documentação atuarial, 161 (54,9%) não apresentaram recursos suficientes para a cobertura dos benefícios concedidos. Segundo o estudo, que será divulgado nesta quinta-feira (21), os municípios devem investir no aprimoramento da gestão para adequar os orçamentos e arcar devidamente com as obrigações previdenciárias.
 
Em todo o Rio Grande do Sul, 331 dos 497 municípios possuem RPPS (66,6%) e 166 (33,4%) estão vinculados ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Com base em dados obtidos a partir dos Relatórios de Contas Anuais de 2020 dos que possuem regimes previdenciários próprios, a pesquisa apurou que 262 estavam com o certificado de regularidade previdenciária em dia. Desses, no entanto, 29 não haviam conseguido atender aos critérios mínimos para a renovação, mas garantiram a documentação por via judicial, tendo de prestar esclarecimentos e adotar medidas corretivas para a regularização.
 
Outras 77 cidades (23,3%) com regimes próprios não haviam apresentado a avaliação atuarial anual do exercício de 2020. Além disso, 6 (1,8%) delas não enviaram o documento até a data da realização do levantamento.
 
Considerando o ano de 2020, os RPPS gaúchos apresentaram um desequilíbrio atuarial negativo de R$ 33.351.988,31, sendo que 283 deles registraram um Índice de Cobertura Atuarial insuficiente, com os recursos acumulados não conseguindo arcar com todas as obrigações. Segundo o estudo, 161 não tiveram recursos nem para cobrir os benefícios que já estão sendo pagos, e um total de 10 RPPS apresentaram resultado atuarial superavitário.
 
Coordenadora do relatório, a auditora do TCE Carolina da Conceição reforça que a intenção do estudo, além de dar transparência aos dados, é reforçar aos municípios a necessidade de melhorar a condução da gestão orçamentária. "O resultado não nos surpreendeu, pois a grande maioria das prefeituras tem mantido dificuldade em cumprir com as obrigações previdenciárias. O que alertamos é para a necessidade de uma melhora da gestão municipal como um todo, para que se possa cumprir com os quesitos básicos, entregar devidamente as avaliações atuariais e conseguir aplicar os recursos de acordo com os limites previstos em lei", comenta a técnica.
 
Na evolução dos municípios referente aos Resultados da Avaliação Atuarial (DRAA) de 2020 para 2021, 212 tiveram um déficit crescente e 70 decrescente. Ainda, dois municípios tiveram superávit crescente e cinco decrescente. Um município tornou-se deficitário no período e três superavitários.
Para Carolina, a compreensão dos gestores sobre a realidade dos dados pode contribuir diretamente para uma mudança comportamental daqui para a frente. "Queremos que as prefeituras entendam que antes mesmo de buscarem recursos, precisam arrumar a casa e estabelecer medidas para reduzir os gastos e equilibrar as contas", complementa a auditora.
 
O mapeamento do TCE foi elaborado com base nos dados levantados para a consolidação do Relatório de Contas Anuais dos entes federativos, que tiveram como fonte de consulta os Demonstrativos Previdenciários disponibilizados pela Secretaria de Previdência/Ministério da Economia no Sistema de Informações dos Regimes Públicos de Previdência Social (CADPREV) e as informações contábeis enviadas pelos municípios, por meio do Sistema de Informações para Auditorias e Prestações de Contas (SIAPC).
 
Os municípios que apresentaram divergências entre o valores registrados e os demonstrativos atuariais ficam apontados como irregulares no Relatório de Contas Anuais de 2020. Nesses casos, precisarão enviar esclarecimentos e adotar medidas corretivas para evitar divergências nos próximos anos. Segundo o TCE, no entanto, 258 (79,6%) municípios atenderam a todos os critérios verificados.
 
Fonte! Chasque (post) publicado no sítio oficial do Jornal do Comércio de Porto Alegre (RS), por Fernando Crancio, no dia 20 de outubro de 2021. Abra as porteiras clicando em https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/politica/2021/10/816757-maioria-dos-municipios-do-rs-tem-dificuldade-em-arcar-com-beneficios-previdenciarios.html

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Em investimentos, tempo é dinheiro

Comece a investir ainda jovem, de forma constante e persistente

Créditos! https://www.facebook.com/tempoedinheiroo/

Não é pequeno o esforço que fazemos para economizar dinheiro, renunciando a coisas e prazeres imediatos para atingir metas futuras. Os resultados tardam, é preciso disciplina e persistência para ver o patrimônio crescer.
 
Disciplina significa investir sempre, não esperar sobrar. Deve ser o primeiro item do orçamento mensal. Persistência, porque leva tempo para acumular quantia relevante de dinheiro.
 
São três os aceleradores que fazem o capital crescer: 1) valor dos aportes (quanto depositamos mensalmente); 2) o tempo de acumulação (quantidade de aportes feitos); e 3) a rentabilidade das aplicações.
 
Se o valor das aplicações for elevado, o capital cresce rápido, mas é a variável mais difícil, especialmente para os mais jovens, em fase inicial de carreira e renda ainda baixa.
 
A rentabilidade acelera o crescimento do capital. Quanto maior for o retorno da carteira de investimentos, maior será o patrimônio acumulado ao longo do tempo. Mas rentabilidade maior pressupõe, necessariamente, maior risco, aspecto que depende do nível de tolerância a risco e da capacidade de assumi-lo.
 
Parece a mesma coisa, mas não é. O nível de tolerância define a disposição a correr risco. Na prática, essa tolerância se comprova quando aguentamos bem a volatilidade, o sobe e desce dos preços dos ativos de renda variável, cientes de que o retorno esperado precisa de tempo para ser alcançado.
 
Quem fica olhando a variação da Bolsa todos os dias, sofre quando o Ibovespa cai, fica preocupado, tem alteração do humor e do sono com a perspectiva de perder dinheiro, não tem tolerância ao risco.
 
A capacidade, por sua vez, define se podemos assumir riscos. Mesmo que a tolerância a risco seja alta, se os rendimentos forem necessários para complementar o orçamento familiar, por exemplo, não temos capacidade para colocar o capital em risco.
 
Os mais jovens tendem a ter boa capacidade para assumir risco, têm o tempo a seu favor, necessário para atravessar períodos de turbulência e recuperar eventuais perdas.
 
Finalmente, o tempo. Quanto maior o volume de aportes, maior será o capital acumulado. Ou seja, quanto mais cedo começarmos a investir, melhor. Dos três aceleradores, o mais fácil de ser implementado, depende exclusivamente da nossa vontade e determinação.
 
Um exemplo numérico para comprovar a teoria, elaborado com taxa nominal de juros, antes de descontar a inflação.
 
A meta é acumular R$ 1 milhão. Se a rentabilidade nominal estimada for de 6% ao ano, a meta será atingida em 52 anos com uma aplicação mensal de R$ 250; em 41 anos, com depósitos de R$ 500; em 30 anos, aplicando R$ 1.000.
 
Se a rentabilidade estimada for de 9% ao ano, a meta será atingida em 39 anos com uma aplicação mensal de R$ 250; em 32 anos, investindo R$ 500; em 24 anos, com depósitos de R$ 1.000.
 
Se a rentabilidade esperada for de 12% ao ano, a meta será atingida em 32 anos com uma aplicação mensal de R$ 250; em 26 anos, investindo R$ 500; em 21 anos, com depósitos de R$ 1.000.
 
Para demonstrar o forte impacto do tempo para alcançar a meta ambiciosa, e provar que mesmo pequenos valores levam a resultados surpreendentes se houver persistência, vamos considerar rentabilidade de 9% ao ano e aplicação mensal de R$ 100, uma quantia acessível que pode ser poupada com pequeno esforço, a partir dos 20 anos de idade.
 
Quando tiver 70 anos, haverá R$ 1 milhão na conta bancária deste jovem, agora mais velho, que tomou a sábia decisão de começar a poupar desde muito cedo.
 
Fonte! Chasque (post) publicado nas páginas do Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS, edição do dia 18 de outubro de 2021, por Márcia Dessem.
 
Márcia é planejadora financeira CFP (Certified Financial Planner), autora de "Finanças Pessoais: o que fazer com meu dinheiro". 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Chimarrão: a tradição mais amada dos gaúchos

No Mês Farroupilha, leitores do Jornal do Comércio votaram e escolheram o mate como a tradição que mais orgulha os gaúchos

 

Leitores do JC escolheram o mate como a tradição que mais orgulha os gaúchos / ANTONIO PAZ/Arquivo/JC

Dos jovens na praça, no parque ou na orla, aos mais velhos na varanda da casa. Na beira da praia ou no galpão na estância, no intervalo das aulas ou durante o trabalho no escritório. Do roqueiro ao tradicionalista. Do funkeiro ao sambista. No campo ou na cidade. Na Capital, no Interior, pelo Brasil afora e pelo mundo inteiro. Onde houver um gaúcho, lá estará ele. No Mês Farroupilha, os leitores do Jornal do Comércio votaram em uma enquete em parceria com a Bom Princípio Alimentos e, com quase o dobro de votos do que o churrasco, que ficou em segundo lugar, escolheram o chimarrão como a tradição preferida dos gaúchos.
 
É difícil encontrar uma residência em algum dos 497 municípios do Rio Grande do Sul em que não haja três coisas: uma cuia, uma bomba e um pacote com erva-mate. Há quem goste do mais simples e tradicional possível, há quem prefira com a adição de chás aromáticos e digestivos, há quem não abra mão da cuia de porongo e há quem prefira de porcelana ou até de metal. Há quem goste “pelando” de quente (o que não é bom para a saúde) e há quem se sinta melhor com a temperatura da água mais amena.

Tradição mais amada dos gaúchos e gaúchas teve de se adaptar à pandemia. Foto: Luiza Prado/JC
O chimarrão é democrático. Há espaço para todos. A tradição de sorver o mate amargo vai passando de geração para geração, e a roda de chimarrão, seja em família, seja entre amigos, é uma espécie de patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul.
 
Desde o início do ano passado, porém, a tradição mais amada dos gaúchos e gaúchas teve de se adaptar. Com a chegada da pandemia do novo coronavírus, compartilhar a bebida passou a ser desindicado por questões sanitárias. Mais de um ano e meio depois, porém, com a disseminação das vacinas contra a Covid-19, ainda com a manutenção dos devidos cuidados, o mate começa a voltar a ser um agregador, uma força que une as pessoas, que aproxima os desconhecidos, um companheiro nas lidas diárias.
 
O consumo do chimarrão vai além do aparentemente simples ato de colocar a erva na cuia, adicionar a água quente, inserir a bomba e sorver. O chimarrão é um ritual para o gaúcho. Cada um faz do seu jeito. Não existe uma receita pronta, um modo correto ou um jeito errado de preparar. O importante é sentir a conexão com o passado, com os povos que deram início a essa história, e manter viva a cultura.
 
Ao sair às ruas, principalmente nos finais de semana ensolarados, não é preciso procurar muito para encontrar grupos sentados em bancos, cadeiras ou até mesmo no chão compartilhando a bebida, que tem uma história profundamente ligada com a terra e com as populações originárias da região Sul brasileira.
 
Confira o resultado da enquete do JC

 

Qual tradição gaúcha mais te orgulha?


1º Chimarrão – 39,8%
2º Churrasco – 23,0%
3º Hino – 12,1%
4º Chimia – 7,0%
5º Música – 7,0%
6º Dança – 5,8%
7º Vestimenta – 3,5%
8º CTG – 1,5%

 

Com os índios guaranis, a origem do costume

 
Pouca gente sabe, mas a maior tradição dos gaúchos não tem origem no Rio Grande do Sul, mas sim na região do Guairá, atual estado do Paraná. Foram os índios Guarani quem descobriram a erva-mate (caá) e passaram a usá-la como bebida misturada em água, tomando-a por meio de uma bomba de taquara, a tacuapi.
 
“Os índios do Guairá eram mais fortes do que os guaranis de qualquer outra região, eram mais alegres e dóceis e possuíam usos e costumes característicos, ainda não observados em qualquer outra tribo da grande nação. Entre esses hábitos, um por certo despertou a curiosidade entre os homens de Irala (espanhóis); tratava-se do uso generalizado de uma bebida feita com certas folhas fragmentadas, tomadas num pequeno porongo por meio de um canudo de taquara, em cuja base um paciencioso trançado de fibras impedia que as partículas da folha também fossem ingeridas”, diz o folclorista, advogado, ensaísta e um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Barbosa Lessa, em sua obra A História do Chimarrão, publicada em 1953.
 
Os colonizadores espanhóis passaram a fazer uso da caá-i (água da erva), o que foi rechaçado pelos padres jesuítas, os quais não viam com bons olhos os atributos desconhecidos da planta que, inicialmente, era de uso exclusivo dos pajés em suas cerimônias. O controle dos religiosos, porém, não foi eficiente, e o mate se difundiu junto às comunidades. Com uma dieta fortemente baseada na carne, as propriedades digestivas do chimarrão caíram como uma luva no cotidiano popular. No século XVII, os próprios jesuítas passaram a incentivar o uso do mate, trazendo-o para o Rio Grande do Sul.
 
Em uma época em que os tropeiros cruzavam os campos, não demorou muito para o consumo do mate se espraiar pelo RS e, assim, começar a jornada que iria transformá-lo na tradição mais amada do Estado.

 

O papel do tradicionalismo na difusão e popularização do hábito

 

Não há como falar sobre a importância cultural do chimarrão para o Rio Grande do Sul sem citar o papel que o movimento tradicionalista teve na sua popularização. Com o objetivo de recuperar os valores, a história e valorizar e difundir a cultura local, desde suas origens, o movimento, encabeçado por figuras como Paixão Côrtes, Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva elevou o mate de patamar, colocando-o como um símbolo da ligação do gaúcho com seu passado.
 
A bebida, que era muito popular no Estado nos séculos XVIII e XIX, acabou perdendo espaço com a chegada do século XX e a tendência de migração da população das zonas rurais para as urbanas. Ligado à imagem do homem humilde do campo, o consumo do mate entrou em declínio, passando a ser relacionado ao atraso.
 
Foi com o nascedouro Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) que o mate renasceu, ganhando um significado que, até então, não tinha. Em 1947, foi fundado o Departamento de Tradições Gaúchas (DTG), no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. O DTG do Julinho foi o embrião do que hoje conhecemos como Centro de Tradições Gaúchas (CTG), que surgiu no ano seguinte, em 1948, com a fundação do 35 CTG.
 
Nos CTGs, a cultura e as tradições eram vivenciadas, e não apenas motivo de lembrança. E o mate amargo estava sempre presente nas atividades, ganhando cada vez mais adeptos.
 
Conforme o doutor em História e professor do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Jocelito Zalla, Barbosa Lessa, com seu livro A História do Chimarrão (1953), teve papel fundamental na criação do elo do gaúcho com os povos originários. “Se o autor já havia afirmado a ligação racial do sul-rio-grandense com o indígena, o chimarrão era o elo cultural com o povo guarani”, destaca o pesquisador.

Lessa foi o tema da dissertação de mestrado em História de Zalla. Em seu trabalho, o professor salienta o papel destacado que o folclorista dava ao chimarrão dentro do processo de fundamentação do movimento tradicionalista, lembrando uma passagem bastante representativa do livro clássico de Lessa: “Só o chimarrão permanece como tradição fundamental do gaúcho, elevando-se ao patamar de um símbolo imorredouro e inconfundível”, escreveu o folclorista na obra.
 
Como, à época, o cavalo, a bombacha, a bota, o chapéu, o lenço no pescoço e o churrasco na valeta do chão eram "coisas do Interior", coube ao chimarrão trazer o campo para a cidade, fazendo a ligação da figura típica do homem da terra, das duras lides diárias, com o cidadão urbano que não se via espelhado no gaúcho heroico do imaginário popular.

 

A etiqueta na roda de chimarrão


Entre as regras, está a de sempre passar o mate com a mão direita / JOÃO MATTOS/ARQUIVO/JC
 
O mate não é só uma bebida. O mate é uma celebração que tem na roda de chimarrão o seu símbolo maior da hospitalidade gaúcha. É possível e comum preparar um chimarrão para tomar sozinho. Mas é na comunhão, na coletividade, que a tradição floresce e se fortalece.
 
Todo mundo que já esteve em uma roda dessas sabe que existe uma certa etiqueta a ser cumprida. Primeiramente, a água não pode ferver ao fogo. Quando a chaleira chiar, já é hora de encher a cuia. O mate é cevado pelo anfitrião, que sorve a primeira cuia. A cuia sempre deve ser passada com a mão direita. Nunca devolva a cuia ao preparador sem antes fazê-la roncar, afinal ninguém deve tomar o resto do seu mate. Qualquer um pode entrar a qualquer hora na roda, mas sem furar a ordem, sempre esperando a sua vez. Outra norma é nunca mexer na bomba. Se ela entupir, é papel do cevador resolver o problema.
 
Confira algumas das regras da roda de mate:
  • A água não deve ser fervida, devendo ser aquecida na casa dos 70°C
  • O dono da casa ou aquele que convidou os outros para a mateada é quem enche a cuia e quem sorve o primeiro mate
  • A cuia deve ser sempre passada com a mão direita
  • O mate deve ser tomado todo, fazendo a cuia "roncar" antes de passá-la adiante
  • Apenas o cevador pode mexer no mate, desentupir a bomba ou ajustar a erva
  • Quando entrar em uma roda de chimarrão, sente à esquerda do cevador, aguardando o mate percorrer toda a roda até chegar a sua vez
  • Não exagere na conversa, permanecendo muito tempo com a cuia nas mãos; o mate tem de circular na roda

 

Erva-mate movimenta mais de meio bilhão de reais por ano no Brasil

 

Além de aquecer nos dias frios, ajudar na digestão e ser um companheiro logo cedo pela manhã ou ao fim da tarde após um longo dia de trabalho, o chimarrão – ou apenas “chima”, para os mais íntimos – movimenta uma grande cadeia produtiva, movendo a economia e gerando renda para quem produz e comercializa e riqueza para o Estado como um todo.
 
Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020, o Rio Grande do Sul produziu um total de 214.552 toneladas de erva-mate, em 24,3 mil hectares de área colhida, gerando R$ 231,7 milhões em produção. O RS é o segundo estado que mais produz a Ilex paraguariensis – nome cientifico da erva-mate – no Brasil, ficando atrás apenas do Paraná (228.382 toneladas colhidas em 29.876 hectares, ger
ando R$ 283,2 milhões em 2020).

 

Tamanho da produção de erva-mate no Rio Grande do Sul


Em todo o Brasil, foram produzidas 527.546 toneladas de erva no ano passado, colhidos 69.047 hectares, gerando um valor de produção total de R$ 576,8 milhões. A produção brasileira não sustenta apenas o consumo local. Em 2019, conforme dados compilados pela Unidade de Estudos Econômicos da Fiergs, foram exportados US$ 79,5 milhões em erva-mate pelo Brasil, com o Rio Grande do Sul sendo o responsável por 81,9% desse volume (US$ 65,1 milhões). O município de Encantado, na região Central do Estado, é o maior exportador de erva-mate do RS, sendo responsável, em 2019, por 75,9% de toda a exportação gaúcha do produto.
 

Valor gerado pela produção de erva-mate no Rio Grande do Sul


Apesar de ainda ser uma potência na produção, o Rio Grande do Sul vem perdendo espaço na participação nacional. Em 1991, o Estado era responsável por 75,8% de toda a erva-mate colhida no País. Nove anos depois, em 2010, o RS colhia 61,8% de toda a produção nacional. Passada uma década, a participação gaúcha no total produzido no Brasil caiu para 40,6%, sendo o primeiro ano da série histórica em que o Rio Grande do Sul deixou de liderar o ranking nacional de produção (o Paraná assumiu a liderança, colhendo 43,2% de toda a erva-mate brasileira no ano passado). Ainda assim, o faturamento aumentou consideravelmente, na medida em que, com a oferta menor do produto, o preço subiu. Além disso, com a pandemia, e a impossibilidade do compartilhamento da cuia, as vendas de erva-mate cresceram, aquecendo o setor.
 
 Fonte! Chasque (reportagem) publicado no sítio oficial do Jornal do Comércio de Porto Alegre, na edição do dia 30 de setembro de 2021. Abra as porteiras clicando em https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/geral/2021/09/813508-chimarrao-a-tradicao-mais-amada-dos-gauchos.html