sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Chasque Bizarro 16! O contador de causos: O transtorno afetivo bipolar do finado Melchyades

Por Afif Jorge Simões Neto, juiz de Direito (RS)

Carta que a desvelosa Cotinha dos Anjos Ferraz remeteu para a sua comadre Evilásia Pedroso, dando conta do recente passamento do marido Melchyades Ferraz.

“Te participo que voltei faz pouco do cemitério, já no abrigo de novo estado civil. Acabamos de dar finalmência às homenagens mortuárias em benefício do pobre do Melchyades. Morreu nas asas da quarta-feira de cinzas.

Enterro de doutor, mas ele bem que merecia!

Botei no defunto mortalha do melhor pano e sapato de duas cores. O caixão foi puxado à força de carro de boi, em atenção ao expirante desejo do distinto. Ele vinha desde a Festa do Divino numa confusa trafegância mental, mas o troço encaroçou mesmo foi de fevereiro para cá, quando atracou de vez o ipsilone na barriga do nome.

Antes de pedir ao garçom a dolorosa no bar da existência, deu pra achar que era escritor de academia. Charutão oitavado na varanda do beiço, noite e dia só na gravatinha-borboleta, andava o atualmente falecido pela metade de um livro de memórias, que trazia por título ´Tudo que é Sólido Desmancha no Puchero´.

Por último, passou a sofrer de transtorno afetivo bipolar. A cada duas Polar que tomava no boteco do Agenor, das de litro, alterava o humor por completo. Ora ficava alegroso, ora emburrado, depois puxava briga com a vizinhança e, no fim, berrava que nem terneiro desmamado costeando o alambrado. Coisa muito séria!

Mas no fim não deu trabalho o Melchyades. O fígado do pranteado explodiu que foram achar os cacos no pátio da prefeitura.

Em sua louvação, mandei erguer mausoléu quem nem de fazendeiro da Expointer, com churrasqueira rotativa e três pavimentos. Ele ficou no debaixo, pois sempre teve muito medo de altura. No que diz respeito à minha pessoa, comadre Evilásia, pretendo honrar o finado com luto fechado e choro copioso a cada remate de reza funda. Depois de um tempo bem passado, e melhor soterrado ainda, não descarto a possibilidade de voltar a tomar estado, mas só se aparecer alguém da envergagem do Melchyades.

Com um abraço grande, como pra cercar galinha, se despede saudosa tua comadre Cotinha”.

Fonte! Chasque de Marco A. Birnfeld, publicado na coluna Espaço Vital, na edição do dia 14 de agosto de 2012, do Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS.