sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

'The Economist' diz que Previdência no Brasil é 'generosidade geriátrica' e defende reforma

Para a revista britânica, finalmente o governo começou a lidar com uma questão que ameaça o futuro do País

LONDRES - Citando a Previdência brasileira como um centro de "generosidade geriátrica", a revista britânica The Economist traz na edição que chega neste final de semana às bancas e aos assinantes uma reportagem sobre a proposta de reforma com o título "Corrigindo o problema previdenciário no Brasil". Para a publicação, finalmente o governo começou a lidar com uma questão que ameaça o futuro do País. Em outro artigo, na seção Américas, a revista dá ainda mais espaço ao tema, trazendo dados e informações adicionais sobre o sistema previdenciário doméstico."Abençoado com praias tropicais, bossa nova e jogadores de futebol performáticos, o Brasil parece um lugar maravilhoso para ser jovem. É um lugar ainda melhor para envelhecer", inicia a reportagem, acrescentando que o Brasil possui um dos sistemas de pensão mais generosos do mundo. "Infelizmente, o passado está agora começando a alcançá-lo." 
The Economist relata que, em média, os brasileiros se aposentam aos 58 anos de idade - oito anos mais jovens do que os americanos e 14 anos antes do que os mexicanos. A revista comenta que alguns grupos podem se aposentar ainda mais cedo, como os professores, que precisam ter apenas 25 anos na sala de aula para obter pensão completa (ainda menos para uma parcial). "Muitos deixam de trabalhar antes de completar 50 anos." O semanário fala ainda do caso de viúvas que podem herdar a pensão de seus maridos e escolher a de maior valor. 

Mencionando um dado da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a reportagem lembra que, num grupo de países ricos, as aposentadorias chegam, em média, a atingir cerca de 60% da renda anterior do trabalhador. No Brasil, essa taxa é de 80%, comparou a publicação. "Os benefícios das pensões do País têm suas origens na Constituição de 1988, que procurou conferir tantos direitos quanto o possível aos brasileiros que sofreram sob duas décadas de governo militar. A Constituição também reconhece os direitos à educação e saúde, mas dar a um pensionista um cheque mensal é mais fácil", ironiza a reportagem.
Foto: Maurício de Souza|Estadão
Aposentadoria
Para revista, Brasil tem um dos sistemas de pensão mais generosos do mundo


A "geronto-generosidade" fere todos os demais, salienta a publicação. "Os custos com a Previdência consomem mais da metade do gasto do governo sem contar os juros e, se nada for feito, dentro de dez anos engolirá 80%." The Economist segue comparando: como parcela do Produto Interno Bruto (PIB), o Brasil gasta 50% mais em pensões do que os países da OCDE, em média. No entanto, tem apenas metade do número de pessoas com mais de 65 anos. "O sistema distorcido desvia o dinheiro de escolas, clínicas e infraestrutura e atrai as pessoas para fora da força de trabalho." 

A revista diz ainda que o déficit da Previdência representa mais de metade do déficit orçamental de 8,9% do PIB e atribui esse indicador como "um grande motivo" para a taxa básica de juros estar em 12,25% ao ano. Para a publicação, a extravagância das aposentadorias torna difícil o crescimento da economia. "O País está passando pela maior e mais profunda recessão já registrada. Se o Brasil quer restaurar a confiança em seu futuro econômico, deve fazer algo em relação às suas pensões", alertou. 

Um bom começo. Por isso, o veículo enxerga com bons olhos a proposta de reformar a Previdência. "Michel Temer, presidente do Brasil, merece crédito por propor reformas que fariam uma grande diferença", defendeu. A revista diz que a intenção do governo é colocar uma idade mínima para aposentadoria aos 65 anos a quase todos e retirar a idade estipulada da Constituição para facilitar o aumento do limite à medida que a expectativa de vida aumenta. "Para se qualificarem para a pensão mais básica, todos, menos os mais pobres, teriam de contribuir durante 25 anos, em vez de apenas 15." 

Os benefícios acima do piso também não seriam mais atrelados ao salário mínimo, que aumentou 80% em uma década até 2015. Os beneficiários não poderão retirar mais do que uma pensão e as viúvas receberão os menores valores. Se Temer conseguir fazer a reforma sem alterações que desconfigurem a proposta do Executivo por meio do Congresso, será uma conquista "surpreendente", na avaliação da publicação. "Além de mitigar a crise da aposentadoria, aumentaria as esperanças para outras reformas do grande Estado brasileiro, mas ineficaz, como, por exemplo, a trabalhistas e a tributária." Para a revista, um sinal de que os mercados estão apostando no sucesso do presidente é o de que o real foi a moeda de mercado emergente que mais se apreciou contra o dólar no ano passado. 

Não é certeza de que a reforma vá passar. O semanário lembra que Temer já fez uma grande reforma, a que impôs um teto para o crescimento dos gastos públicos, mas que essa mudança não fez com que ninguém se sentisse mais pobre. Já no caso da Previdência, as mudanças terão impacto, especialmente, em pessoas perto de se aposentar e que terão de trabalhar mais tempo do que estavam esperando. O Partido dos Trabalhadores (PT), que era governo e agora é a principal oposição, argumenta que Temer está despejando os custos da crise nos trabalhadores.

Fonte! Chasque (matéria) veiculado no sítio do O Estadão. Abra as porteiras clicando em