domingo, 26 de fevereiro de 2017

Queda de preço leva agricultor do RS a arrancar pés de erva do chimarrão

Ervas-mate em banca no Mercado
Público de Porto Alegre (RS
Desde criança, João Nilson da Silva, 67, planta e colhe erva-mate, planta usada no preparo do chimarrão, bebida símbolo do Rio Grande do Sul, também consumida no Uruguai e Argentina.

Silva cresceu entre os ervais da família, em Venâncio Aires (a 104 km de Porto Alegre). Detentora do título de "capital nacional do chimarrão", agricultores da cidade estão destruindo os pés de erva-mate devido à queda do preço pago aos produtores.

As ervateiras, empresas que preparam e embalam a erva para a venda, pagam R$ 8 aos agricultores por arroba (15 quilos). Em 2014, o valor da arroba chegou a R$ 18. Cada arroba resulta em sete quilos de erva-mate para venda.


Nos supermercados gaúchos, a erva-mate é vendida por R$ 10 o quilo, em média. Em 2013 e 2014, o consumidor pagou cerca de R$ 15 por um quilo do produto.


Silva arrancou seis hectares de erva-mate no ano passado.


"Foi difícil até decidir arrancar as plantas. Eu me criei cortando erva. Agora não dá mais, o valor pago está muito baixo, meus músculos não aguentam mais e não tenho ninguém para me substituir", desabafa o agricultor.


"O grande vilão da história é o preço pago para o produtor", diz Sandra Wagner, diretora do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Venâncio Aires. De acordo com a diretora, a valorização da arroba gerou uma corrida na produção e agora há excesso de produção, o que desvaloriza o produto.


Em 2014, o Rio Grande do Sul colheu 276.232 toneladas de erva-mate, ante 128.300 toneladas em 1990. Como a planta é colhida, em média, de dois em dois anos, quem correu para plantar no auge agora vê o produto desvalorizado.


Além disso, Sandra afirma que, dos R$ 8,00 recebidos pela arroba, os agricultores ficam com apenas R$ 4,50. Isso porque R$ 2,50 são desembolsados para pagar a mão de obra, e R$ 1, o frete. A escassez de mão de obra também dificulta a produção. "Não é uma cultura mecanizada e poucas pessoas fazem."


Se a colheita é manual, para arrancar os ervais, é preciso de ajuda extra. Silva gastou R$ 4.000 para arrancar seus ervais porque precisou alugar maquinário, mas considera o valor menor do que o prejuízo que teria no futuro.


A diretora diz que a maioria dos agricultores está substituindo a erva-mate por plantação de aipim, que se adapta bem ao solo da região. Silva, porém, está plantando milho. "Está ficando um milho bonito de ver", conta o produtor.


CAPITAL DO CHIMARRÃO


Apesar da alcunha de capital do chimarrão, Venâncio Aires já não é a líder no ranking de produção de erva-mate e de área plantada.


Em 1990, a cidade colhia 30,3 toneladas da erva. Em 2014, a quantidade caiu para 5,2 toneladas, representando apenas 1,9% do total da produção gaúcha.


O município caiu do primeiro lugar para o décimo lugar, como mostram os dados do IBGE, fornecidos pelo Sindimate (Sindicato da Indústria do Mate do Estado do Rio Grande do Sul).


Em 2000, Venâncio Aires também era líder na área plantada, com 4.700 hectares de ervais. Mas, em 2014, a cidade passou para o quarto lugar, com apenas 1.550 hectares plantados.


O líder em plantação no Estado é, hoje, o município de Ilópolis, cujo nome é derivado de Ilex paraguariensis, o nome científico da erva-mate. Em 2014, a cidade colheu 59 mil toneladas, 21,4% da produção gaúcha, e plantou 7.300 hectares da planta.


INDÚSTRIA


"O que está ocorrendo é um ajuste de produção. São arrancados os ervais que não estão bem", diz Gilberto Luiz Heck, proprietário da ervateira Elacy.


A empresa tem sede em Venâncio Aires, mas a maior parte da matéria-prima vem do Paraná, e não da capital do chimarrão.


Heck estima que o setor tenha um crescimento de 30% na produção em 2017. "É até preocupante. Não estamos conseguindo aumentar a demanda de consumo", disse à Folha (Folha de S.Paulo, 24/2/17)


Fonte! Buscamos este chasque (reportagem) no sítio da Brasilagro. Abra as porteiras clicando em