segunda-feira, 27 de junho de 2011

Brasileiros começam a decifrar mistérios da bolsa de valores

Aumento de ganhos e estabilidade econômica contribuem para gerar novos investidores. Foto Philippe Lopes / AFP/JC
Aumento de ganhos e estabilidade econômica contribuem para gerar novos investidores.Um resultado financeiro instável e a constatação de que a renda fixa não gerava resultados suficientes para multiplicar as economias. Esse foi o cenário que levou a atriz Natali Caterina Karro, de 31 anos, a buscar no mercado de ações uma oportunidade que resultasse em mais tranquilidade nos momentos em que a entrada de recursos era escassa. “Eu preciso de um planejamento financeiro bem rígido. Tem meses em que eu recebo um bom dinheiro e meses em que eu não recebo nada”, explica Natali. Pensando nas épocas de “vacas magras”, a atriz se acostumou a guardar parte dos rendimentos para o futuro.

Depois de ouvir atentamente a análises de economistas sobre o mercado financeiro na televisão, Natali encontrou em um site de compras coletivas a oferta de um curso sobre investimento em ações. Comprou, mas não sem antes agendar uma visita à Magnum Corretora, que disponibilizou a oferta no Peixe Urbano. “Aí fiz o curso, e ele foi de grande valia porque desmistificou a bolsa para mim”, relata Natali. Esse processo resultou na abertura de uma conta na corretora há pouco mais de um mês, período em que a atriz já conseguiu perceber diferenças entre a renda fixa e a variável. “Na bolsa se ganha e se perde, mas a gente vê as coisas acontecendo.”

Membro de um clube de investimentos, Natali ainda não toma decisões sozinha, contando com a orientação da corretora. Ainda assim, acompanha o noticiário econômico e está aprendendo a conter as expectativas sobre o desempenho das ações. Ela revela que amigos e parentes desconfiavam da segurança de investir na bolsa, alegando os riscos de perder dinheiro no mercado. “As pessoas têm a imagem de que é o risco é muito grande. Eu sou artista no Brasil, mais risco do que isso é difícil de ocorrer”, diz. Dada a condição, Natali afirma que pretende colocar mais recursos na bolsa “na medida do possível”.

Natali não está só. Assim como ela, milhares de pessoas estão desbravando o universo da bolsa de valores, atraídas pelas possibilidades de ganhos superiores a outras modalidades de investimento. São investidores com perfis variados e diferentes do observado até alguns anos, num ainda incipiente movimento de popularização que está dando novos ares à BM&FBovespa. O ano de 2002, por exemplo, fechou com 85.249 cadastros de pessoas físicas na bolsa, enquanto até maio deste ano o mesmo dado somava 607.179 inscrições, o equivalente a pouco mais de 0,3% da população, conforme informações da própria instituição.

O crescimento no volume de pessoas físicas na bolsa é produto de um esforço que envolve a BM&FBovespa e as corretoras de valores, no objetivo de facilitar o acesso à negociação e estimular a diversificação dos investimentos dos brasileiros. Isso porque a participação da população nacional no mercado financeiro é baixa na comparação com outros países emergentes e fica ainda mais atrás em relação a nações desenvolvidas.

O superintendente da Bradesco Corretora, Adilson Santos, explica que três membros fundadores do chamado Brics - a Rússia, a Índia e a China - estão com 5% ou 6% de suas populações em bolsa. “Só aí já vemos que tem um espaço gigantesco para crescer no Brasil, isso sem falar nos países desenvolvidos. No caso dos Estados Unidos, perto de 50% das pessoas participam desses investimentos”, diz.

Apesar da baixa participação, o cenário econômico está mais favorável para entrada de um contingente maior na bolsa. A BMF&Bovespa tem a expectativa de chegar aos 5 milhões de investidores nos próximos anos. Santos destaca que a meta é ambiciosa, mas não pode ser desacreditada. Segundo ele, “felizmente” o País passou por um processo de equilíbrio da inflação e que a atual taxa básica de juros (12,25% ao ano) não se perpetuará. Com uma possível queda na taxa de juros no próximo ano e, consequentemente, uma renda fixa pouco atrativa, “o investimento em bolsa é o principal veículo para rentabilizar o patrimônio”, de acordo com o superintendente da Bradesco Corretora. Ele aponta que as pessoas já estão amadurecendo sua visão sobre a bolsa e que, com o aumento da renda, o volume de investidores deve crescer naturalmente.
Formação é quesito básico para passar a operar nos pregões

A bolsa de valores pode ser um bom negócio para quem pretende incrementar seus investimentos. Antes de entrar nesse universo, no entanto, são necessários alguns conhecimentos básicos sobre o funcionamento do mercado, e é justamente aí que as corretoras vêm atuando para qualificar futuros investidores, numa estratégia que gera resultados na captação de clientes.

A diretora de educação da Magnun Investimentos, Patrícia Cezar, reconhece que as campanhas institucionais são de grande importância para disseminar a cultura do investimento em bolsa, mas afirma que ensinar as pessoas é a forma mais eficaz de criar novos investidores. “É impossível não ter a parte educacional e acreditar só nas campanhas da bolsa”, destaca.

Segundo a dirigente, através de ações educativas, não somente as ações, mas outras oportunidades possibilitadas pela bolsa de valores podem ser divulgadas e adequadas ao perfil do interessado. “Somos o elo para levar o investidor para dentro da BM&FBovespa, temos uma agenda extensa de eventos, palestras gratuitas, que vão desde finanças, para ajudar as pessoas a se organizarem, para depois falarmos de investimento”, pontua.

Patrícia também concorda que os jovens são destaque no perfil que se forma com a popularização do mercado de capitais. A chamada geração Y e sua facilidade de acesso a informações, estão correndo atrás de dados sobre esse mercado. “Temos um escritório em Recife, onde fizemos cursos fechados para pessoas com menos de 18 anos”, observa.

Com uma abordagem de “shopping financeiro”, a XP Investimentos aposta na personalização do atendimento e na educação para impulsionar a entrada de pessoas que ainda não conheciam o mercado de renda variável. O diretor de marketing da corretora, Bruno De Paoli, explica que é ofertada uma ampla gama de produtos para encaixar a oportunidade no perfil do investidor. “Ao oferecer esse pacote, sentimos uma grande receptividade, porque esses clientes nem sempre são bem atendidos nos bancos, que não têm uma solução completa para seus perfis”, aponta.

Conjuntura e tecnologia fomentam a entrada de novos investidores

Diante de um cenário em que a rentabilidade da poupança é considerada baixa e a de outras alternativas em renda fixa para pequenos aplicadores também, o público que investe nessas categorias começa a se direcionar para o mercado de ações. São jovens, mulheres, idosos, entre outros cidadãos, que despertam para possibilidade de multiplicar economias. Recente pesquisa da BM&FBovespa mostra que entre abril de 2009 e abril de 2011, os investidores com mais de 66 anos cresceram 37% em participação na bolsa.

Na Bradesco Corretora, são os jovens que se destacam entre aqueles que demonstram interesse em entrar e, de fato, ingressam na bolsa. O superintendente da empresa, Adilson Santos, sugere que o brasileiro está se antecipando a conhecer a modalidade. “Há 15 anos o investidor iniciava em bolsa com 25, 30 anos de idade”, afirma. “Eu diria que hoje, a idade com que vêm se atentando a essa possibilidade de investimento está muito próxima dos 17, 18 anos”, acrescenta. Santos lembra de produtos como clubes de investimentos e carteiras recomendadas - com empresas que pagam bons dividendos -, que caem no gosto e no perfil de quem está se familiarizando com os investimentos em bolsa. Processo de familiarização que conta, aliás, com um aliado de peso: a tecnologia.

A popularização do home broker, que conecta os investidores à bolsa através da internet, é um dos responsáveis pelo crescente interesse de jovens pelo mercado financeiro. O acesso à web, porém, também estimula o conhecimento da entrada de um espectro de público ainda maior. “As pessoas podem acessar sua corretora pelo seu notebook e isso facilita muito a entrada de novos players, sobretudo pessoas físicas”, argumenta o professor do Ibmec, Alexandre Espírito Santo.

De acordo com o professor, um dos grandes entraves para consolidar o processo de popularização da bolsa era a falta de conhecimento por parte de investidores em potencial, a exemplo de integrantes da classe C. Espírito Santo alega, no entanto, que o cenário vem mudando com iniciativas de educação financeira que se proliferam e disseminam. “Na hora que a própria bolsa começa a fazer essa prática educacional, acaba trazendo para o mercado esses potenciais investidores da classe média”, diz.

Bolsa diversifica iniciativas para atrair público

Campanha publicitária com Pelé ajuda a aproximar os brasileiros das operações. Foto BM&F BOVESPA/DIVULGAÇÃO/JC

Para estimular a entrada de novos investidores e quebrar o estereótipo de investimento de risco apenas para ricos, a BMF&Bovepa vem promovendo uma série de iniciativas para atrair novos investidores. Entre as mais recentes está a campanha Quer Ser Sócio?, que tem como garoto-propaganda o ex-craque de futebol Pelé. A proposta é mostrar que, assim como a carreira do jogador, o mercado de ações tem altos e baixos, mas pode constituir uma trajetória de sucesso.

O professor de educação financeira da instituição, José Alberto Netto Filho, ressalta que o atual conceito trabalhado é que a bolsa é “para todos”. Com o mote, são realizados palestras, cursos presenciais e online, exposições a nichos diversificados, entre crianças, jovens e investidores iniciantes. “Além disso, as instituições financeiras trabalham focadas para ter resultados em captar determinado público que tem renda e já está perdendo receios em relação à bolsa”, frisa.

Netto acrescenta que a desmistificação desse tipo de investimento vem sendo trabalhada, lembrando que é necessário conhecimento e paciência por parte dos participantes desse mercado. “A bolsa é um investimento de tempo, sempre vão ter oportunidades de encontrar preços bons para investir em certas companhias.” Outro canal para divulgar as oportunidades é o programa Educação Financeira, realizado pela BM&FBovespa e transmitido pela TV Cultura nas manhãs de sábado.

O resultado das iniciativas é prático, e vai além do volume de investidores que cresce ao longo dos anos. Recente estudo divulgado pela bolsa mostra que a campanha estrelada por Pelé gerou maior receptividade ao mercado de ações. O Rio Grande do Sul foi o estado com maior aceitação: 63% dos entrevistados demonstraram maior disposição em investir em ações após contato com a peça publicitária feita para televisão.

Estudante projeta independência financeira na BM&FBovespa

Aos 23 anos, o estudante de administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Márcio Nunes já mantinha investimentos na poupança desde os 15 anos, passando para CDB e fundos bancários aos 19. A entrada na bolsa foi uma decisão que uniu dois fatores: um casamento e a expectativa de alcançar a independência financeira. “Queria ter como sustentar carro, casa, em um sonho de independência rápido, até os 30 ou 40 anos consolidado”, revela o estudante. “E nenhum outro investimento te dá essa possibilidade”, completa.

Com o desempenho fraco do Ibovespa, Nunes afirma que não tem conseguido boa rentabilidade no curto prazo, mas ressalta que sua estratégia é de longo prazo. Por isso, participa com uma carteira formada por empresas que pagam bons dividendos, obtendo retorno mesmo com as oscilações da bolsa. Hoje, o jovem investidor é estagiário do GuiaInvest (www.guiainvest.com.br), portal que começou como site informativo sobre os movimentos do mercado financeiro, e se tornou uma rede social com mais de 40 mil cadastrados.

O proprietário do site, André Fogaça, explica que muitas pessoas procuram no site as informações iniciais antes de se tornarem investidores. É uma oportunidade para corretoras, investidores e curiosos do mercado trocarem experiências. “A gente tem como objetivo auxiliar o novo investidor, tanto que o site é bastante simples”, explica. Ele acrescenta que um termômetro do interesse no mercado financeiro é a média de 100 novos cadastros diários registrados no GuiaInvest.

Fonte! Chasque de Mayara Bacelar, publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS, na edição do dia 27 de junho de 2011.