sexta-feira, 16 de abril de 2010

Aposentados, uni-vos

Conheço um sujeito que defende a seguinte tese: o homem nasce para aposentar-se. Alguns não chegam lá. Outros, arrependem-se de ter chegado. A pessoa perde dois terços do salário, fica sem saber o que fazer e ainda vê a sua remuneração mensal ser devorada pela falta de reajustes adequados. Um aposentado pessimista me disse assim: “Quando a gente escapa do câncer, cai no fator previdenciário ou na indigência”. Só levando na brincadeira. O assunto é muito sério. Luiz Inácio é campeão de popularidade e fez muita coisa boa, mas parece que se esqueceu completamente dos aposentados. Por quê? Talvez por ter ouvido mais o Sarney do que o Paulo Paim.

Aposentado vota. O pior de tudo é suportar os discursos dos neoliberais sobre o rombo da Previdência Social. Eu já ouvi empresário de papo para o ar na praia sustentando que o justo é trabalhar 44 horas por semana até os 70 anos de idade. Depois, é só correr para abraço. Mortal. Estamos vivendo mais. Temos de trabalhar mais tempo. Mas precisamos também ter coragem de falar bem alto: não viemos ao mundo só para trabalhar. Existe vida inteligente e legal fora dos ambientes de trabalho. Mais grave no Brasil do que o buraco da Previdência é a sonegação de impostos. A mesma gravidade que tem o mau uso pelos governos do nosso dinheiro. Ah, como eles sabem fazer isso. Que performance! Se todos os que não pagam seus impostos forem enquadrados e acabar a corrupção, deve dar para cobrir o tal rombo da Previdência Social.

Tem muito neoliberal sonhando com uma volta ao passado. Amariam acabar com férias pagas, 13 salário, FGTS e outras vantagens que lhes diminuem os lucros. É gente que adora o modelo chinês, muito parecido com o capitalismo do século XIX, e está furiosa com Obama por causa das novas leis de proteção à saúde. Nada como o trabalho semiescravo, sem reclamações ostensivas nem greves ou sindicatos desordeiros. O aumento da expectativa média de vida incomoda muito patrão moderno. É uma chatice. O cara se aposenta e fica vivo um tempão, vendo TV de tarde, dando gastos para o Estado, ocupando leitos nos hospitais, sobrecarregando o sistema, obrigando a que se pratique uma carga tributária elevada.

Ainda não desisti de ser um líder da dimensão de Lênin. Começo corrigindo Karl Marx e lançando um “Manifesto dos Aposentados”. O motor da história não é a luta de classes, mas a luta dos aposentados por uma vida digna depois de tanto trabalho. O sujeito universal da história não é proletariado, mas o aposentado em ação para sobreviver. É por isso que eu digo: “Aposentados, uni-vos, formai vossos batalhões. Às armas, aposentados, contra o fator previdenciário e outros fatores nocivos”. Li, num manual de aplicação do fator previdenciário, a seguinte explicação: “Quanto maior a expectativa de vida do segurado, menor o valor do benefício”. Uau! Viver mais é um péssimo negócio. Não traz benefício algum. Dá trabalho. Vive-se por teimosa. Vou corrigir Marx de novo: um espectro ronda por aí. É o espectro do aposentado.

Fonte! Chasque postado por Juremir Machado da Silva, em sua coluna, no Correio do Povo de Porto Alegre - RS, no dia 13 de abril de 2010 - http://www.correiodopovo.com.br./

Crédito: ARTE RODRIGO VIZZOTTO