terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

2010: rumo aos 85 mil pontos?

O ano de 2010 começa com um olhar muito mais otimista sobre o futuro das cotações do que ocorreu em 2009. As expectativas são positivas, substituindo o olhar sombrio que há pouco reinava no mercado. Com isto, as recomendações de compra voltam com força, apesar de as oportunidades de investimento serem muito inferiores do que eram há um ano.

É certo que em 2010 a lucratividade das companhias brasileiras apresentará elevação, uma vez que vários setores estarão com demanda mais significativa em comparação a 2009. O ajuste sempre é mais dolorido de ser feito e gera custos/despesas muito superiores, que vão além da simples queda de receitas. A ampliação de capacidade, ao contrário, resulta em diminuição dos custos/despesas de produção, com aumento da produtividade individual e com o uso de estoques de matérias primas a preços muito mais baratos. É esperada a ampliação de algo próximo de 20% para a lucratividade média das empresas negociadas em bolsa no Brasil.

Antes de saber se a bolsa vai mesmo atingir os 85 mil pontos, é importante que você saiba que o que move o mercado são as expectativas. Vários olhares mundo afora estão atentos aos passos do Brasil. Muitos fatores positivos estão impulsionando as valorizações, como os seguintes: patamar de juros em níveis historicamente baixos; investimentos a serem realizados em razão do pré-sal, da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016; ampliação da oferta de crédito, inclusive para o setor imobiliário; aumento da renda do trabalhador; patamar de desemprego em níveis muito baixos e pauta exportadora impactada positivamente pela demanda Chinesa.

Certamente tudo isto tem contribuído para o vigoroso processo de alta da bolsa, e não há sinais de que isto será brevemente interrompido. O fluxo de capital estrangeiro continua contribuindo para este processo. O Ibovespa já subiu mais de 100% desde o fundo, com vários destaques individuais do mercado como um todo subindo mais de 300%.

Mas é bom que você saiba que quanto mais o pessimismo se afasta, mais o seu risco aumenta. Como entender melhor isto? A visualização do cenário do final de 2008 nos mostra várias empresas com as cotações despencando, enquanto que os resultados empresariais revelaram que as empresas são afetadas de forma muito diferente nas crises, mas o mercado derrubou tudo numa velocidade impressionante, ignorando esta situação. Agora com o otimismo se instalando, diversas premissas positivas são “precificadas”. Até aí, tudo bem, mas o problema consiste no fato de tanto nas altas como nas quedas as expectativas costumam errar para mais ou para menos. Olho aberto, portanto, também aos riscos, pois é o movimento de precificação irracional que antecede as quedas, embora não seja possível precisar quando.

Entre os riscos mais significativos para o ano de 2010, destacam-se:

a) possibilidade de aumento dos juros. O menor nível de juros da história do país tem vários efeitos, como tornar os dividendos ainda mais atrativos e diminuir o custo de financiamento de empresas que necessitam de capital intensivo. O aumento da taxa SELIC também pode interromper o movimento de migração de outros investimentos para a bolsa, ao mesmo tempo em que diminui o “preço justo” das ações para os investidores que utilizam da técnica do fluxo de caixa descontado em que a Taxa SELIC é um dos componentes da taxa de desconto;

b) eleições. As eleições apresentam riscos decorrentes de medidas eleitoreiras que podem ser tomadas de forma irresponsável ou pela possibilidade de vitória de um candidato que não tenha um histórico de respeito a contratos, por exemplo. Na eleição presidencial, por enquanto, isto tem sido minimizado por estarem no páreo candidatos conhecidos;

c) fatores externos como ausência de recuperação da economia americana e arrefecimento do crescimento da China, diminuindo o apetite internacional por risco e contribuindo para a queda dos preços de commodities exportadas pelo país;

d) taxa de câmbio que afeta diversos setores da economia, estabelecendo uma concorrência injusta, especialmente para o segmento industrial.

A grande chave para o ano de 2010 certamente será a seletividade. É pouco provável que quase tudo suba com o ímpeto das recentes altas, mas ainda há oportunidades. O investidor, no entanto, deverá se contentar em comprar algumas ações que já subiram até mesmo mais de 300% desde o fundo, se estiver ingressando no mercado agora.

É provável que o dinheiro em caixa para enfrentar a crise, como fator primordial para atravessar o primeiro semestre de 2009, seja aos poucos substituído pela capacidade de produção ociosa em segmentos que demandarão maior produção e possam começar a ter uma oferta mais apertada de produtos.

Os múltiplos fundamentalistas e as perspectivas futuras visualizáveis nos balanços novamente servirão de guia, numa estratégia racional e focada em aproveitar a ineficiência do mercado em precificar as ações.

A atenção deverá permanecer, portanto, em relação aos desempenhos empresariais e ao cenário econômico. Para quem está com poucos recursos na renda fixa, pode ser o momento de ir aos poucos recompondo, sem pressa. Quem fez isto na fase eufórica vivida a partir de 2004 e que durou até maio de 2008, sabe a importância deste movimento, pois pode comprar verdadeiras pechinchas na crise que se iniciou ao término do primeiro semestre de 2008.

Portanto, apesar dos riscos decorrentes da precificação de fatores de otimismo, é possível que a bolsa venha a atingir os 85 mil pontos. Mas, de fundamental importância será escolher as ações certas, seja para mitigar os efeitos de um eventual cenário de queda, seja para ampliar os ganhos em relação ao mercado caso a alta se torne um fato.

Fonte! Chasque publicado no dia  31/01/2010, no galpão virtual Small Caps - http://smallcaps.blogs.advfn.com/.