sábado, 19 de julho de 2014

Educação financeira: quando começar e quanto dar de mesada?

Especialista compara iniciativas familiares e dá dicas sobre a fórmula ideal de abordar o assunto de forma saudável com os filhos
A partir dos três anos de idade da criança, uma moeda de R$ 1 ou alguns centavos são o suficiente para começar a educação financeira dos filhos, diz especialista
Um valor fixo estipulado por mês, o incentivo para produzir e vender algo ou o desconto por penalizações comportamentais com base em regras preestabelecidas? Afinal, qual a fórmula ideal para dar mesada aos filhos e ensinar lições desde cedo sobre educação financeira?

O assunto ressurge depois que Paulo Lima, de Porto Alegre, pai de Larissa, de dez anos, incentivou a filha de dez anos a escrever um livro e a vendê-lo na internet. Em vez de simplesmente aceitar o pedido por mesada, ele a motivou a produzir algo relacionado aos seus interesses – no caso, a leitura e a escrita – e, dessa forma, deu lições não apenas de empreendedorismo, mas de educação financeira.

Outra iniciativa relacionado ao mesmo tema, desta vez em Rondônia, gerou bastante repercussão no ano passado. Isso porque o juiz Vitor Yamada, de Rondônia, definiu um conjunto de regras para o pagamento, com descontos para desobediência, notas baixas e mau comportamento. Cada "infração" representava um valor a menos na tabela, e a medida em que elas iam sendo cometidas, os cofrinhos dos filhos Giullia, oito anos, e Vitor, seis, ficavam mais vazios.

Para Márcia Tolotti, psicanalista e consultora em educação financeira, as duas iniciativas demonstram pais atentos aos aspectos mais sofisticados da educação, como a educação financeira. Ela, porém, alerta:

– Nota 10 por se preocuparem com isso, mas as diferenças são muitas. O primeiro caso é motivador, desenvolve, e o segundo, pune. Entre as duas, a do pai que incentivou a produção de algo tem muito mais chance de gerar resultados de longo prazo – diz.

Segundo a especialista, uma tabela rígida (com os descontos) até pode gerar bons resultados no curto prazo, mas se torna um conjunto tão inflexível de regras e de transgressões que a criança, além de não aguentar por muito tempo, cria uma associação entre dinheiro e punição que poderá comprometer a saúde financeira no futuro.

– O caso do pai de Porto Alegre que incentivou a criação do livro é a versão digital das crianças que há 40 anos vendiam limonada na frente da casa. Daquelas que há 30 anos faziam pequenos serviços e daquelas que há 20 anos vendiam seus livros e brinquedos. Nosso país é feito de empreendedores, e o pai que incentiva a escrever segue a linha de pais saudáveis que geram segurança nos filhos, que apoiam e ajudam eles a saírem da zona de conforto.

Mas, então, os pais não podem condicionar a mesada a nada?

– Podem sim, mas jamais a uma lista que até os adultos teriam dificuldade de seguir. Outro aspecto é que o pai se torna um fiscal financeiro do filho. Considero muito arriscado o método e, a  longo prazo,  ineficaz. E quando a criança fizer além do esperado, vai receber mais? A monetarização daquilo que deve ser natural (cumprir normas interpessoais e sociais como as que estão na tabela) ajudará? – afirma.

Influência familiar na consciência financeira

Outra dúvida dos pais é quanto à influência de familiares próximos, como os avós, os tios e os primos. Como lidar se as regras são diferentes em cada casa?

– Se a criança está bem preparada, irá saber como trabalhar. Por exemplo, sobre os familiares que preferem dar dinheiro no Natal ou no aniversário, a regra é a mesma: uma parte deve ser guardada, e outra pode ser usada em um projeto, uma aquisição. A lógica de uso do dinheiro deve ser a mesma, independente da fonte, assim não haverá maiores problemas.

Repasse financeiro pode começar aos 3 anos
Segundo Márcia, não há uma idade ideal para começar a dar mesada, embora esse processo possa se iniciar com crianças a partir dos três anos, dando algumas moedas, escolhendo um objeto a ser adquirido e complementando o restante.

– O mais importante é sempre mostrar o processo de escolha envolvido nos gastos. Para se ter algo, é inevitável "não ter algo". A escolha é a grande lição a partir desta idade. Ensinar as crianças é ajudar para que tenham uma capacidade de esperar, de tolerar a frustração em não ter tudo e na hora, e é construir com elas a percepção das consequências das escolhas.

Mas se a dúvida é quanto à efetividade da mesada na educação infantil, Marcia é clara:

– Ajuda, sem dúvida. É a forma de educar mostrando como ganhar, poupar, gastar e doar. Pontos fundamentais na relação de qualquer pessoa com o dinheiro . Seguir o infográfico: http://infogr.am/educacao-financeira-infantil-em-questao?src=web

  Confira sete dicas da especialista para lidar com o assunto em casa:

1. Mostre sempre, em qualquer idade, que usar dinheiro é fazer escolhas. Escolhas são ótimas desde que possamos pensar antes sobre elas. Ou seja, se compro um jogo de videogame, não posso comprar no mesmo mês um boné novo.

2. Não condicione demais a mesada a hábitos e atitudes que todos devem ter. Ninguém deve ser pago para ser honesto, respeitar a si e aos outros.

3. Palavra, dia e valor combinados com os filhos devem ser respeitado pelos pais. Não use a mesada como moeda de chantagem.

4. Mostre a importância de ganhar, guardar e doar o dinheiro. 
 
5. Habitue seu filho desde a primeira mesada a guardar de 10% a 30% para um projeto maior. 
 
6. Construa com o filho um sonho de longo prazo (dentro da maturidade de cada criança). Por exemplo, para comprar um celular novo, mostre quantos meses ele deverá guardar o dinheiro e o quanto você poderá contribuir. Motive-o com frequência.

7. Comemore as pequenas conquistas sempre! Apoie, seja amoroso, torne gratificante fazer escolhas, esperar para conquistar e vibre quando chegar a hora.

Fonte! Chasque (reportagem) de Ana Caroline Bolsson, publicado no ZH Clic RBS, no dia 18 de julho de 2014. Abra as porteiras clicando em http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/bem-estar/noticia/2014/07/educacao-financeira-quando-comecar-e-quanto-dar-de-mesada-4553904.html

Créditos do retrato! Public Domain Pictures / divulgação!