quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um centavo é relegado por cidadãos, mas em escala faz diferença para empresas

Na época do lançamento do real, 10 moedinhas de R$ 0,01 garantiam um pãozinho, enquanto agora são necessários mais de 50 moedinhas
Um centavo é relegado por cidadãos, mas em escala faz diferença para empresas Mauro Vieira/Agencia RBS
Na loja de produtos que promete produtos de R$ 1, Marisa comprou um conjunto
de potes plásticos de R$ 2,50: "funciona como um chamariz"          
Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS
 
Vamos ser francos: você se abaixaria para apanhar uma moeda de R$ 0,01 na calçada? Em razão do baixo valor, é provável que não só você como a maioria dos brasileiros respondam à pergunta com um indubitável "não".

Pudera. Se nos primeiros anos do real, lançado em 1994, as moedas de pequeno valor tinham lá seu poder de compra, hoje não se pode dizer o mesmo. Na época, com R$ 1 era possível comprar 10 pães cacetinhos – 10 moedinhas de R$ 0,01 garantiam um pãozinho. Hoje, um cacetinho custa mais de R$ 0,50 (50 moedinhas de R$ 0,01).

Ao longo dos anos, lojas que ancoravam os preços na figura do real precisaram se adaptar. Com uma moeda de R$ 1 na fachada, a Show do Real, na Capital, negocia produtos de até R$ 60. Vendidos a R$ 1, seguindo à risca o que sugere o nome da loja, apenas alguns doces, salgados e itens de material escolar.

– A gente sabe que o preço não é R$ 1, mas isso funciona como um chamariz – comenta a comerciária Marisa Ribeiro, 54 anos, que comprou um conjunto de potes plásticos de R$ 2,50.

Em longo prazo, um dos resultados da desvalorização da moeda é a queda no seu índice de circulação no mercado: em razão do pequeno valor, pouca gente faz questão de carregar no bolso moedas de R$ 0,01 – na prática, mesmo um grande volume de moedas ainda significa pouco poder de compra. No mercado como um todo, a consequência dessa cadeia de desinteresse pelo centavo é a falta de troco.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Gustavo Schiffino, diz que o problema pode piorar devido ao novo valor das tarifas de ônibus da Capital (R$ 3,05).

– Sem dúvida que vai se agravar. Não existe moeda suficiente. Áreas que dependem desse troco terão de procurar alternativas com os bancos.

Em 21 de março, data em que o aumento nas passagens foi aprovado, o valor previsto inicialmente era de R$ 3,06. Prevendo problemas com o troco nos ônibus, o prefeito José Fortunati arredondou o preço para R$ 3,05.

O gerente executivo do Consórcio STS, Antônio Augusto Lovatto, garante que, assim como contornavam a dificuldade no fornecimento do troco com o valor anterior das tarifas (R$ 2,85), as empresas de ônibus estão preparadas para o desafio que se avizinha:

– O cobrador já sai com o kit troco (principalmente moedas de R$ 0,05). Com isso, minimizamos o problema.

Além disso, explica Lovatto, pouco mais de um quinto dos passageiros pagam o transporte em dinheiro, o que também reduz drasticamente a circulação de moeda nos ônibus.

Criando ou não problemas de troco, o fato é que os R$ 0,05 que impediram a passagem de ter um preço cheio (R$ 3) farão uma enorme diferença nas contas das empresas de ônibus. Por mês, considerando-se uma média de cerca de 20 milhões de passageiros pagantes em Porto Alegre, o impacto será próximo de R$ 1 milhão.

Lei informal para a falta de moedas

A adoção dos preços dos combustíveis com três casas após a vírgula já causou polêmica. Amparados por uma portaria de 1994, do extinto Departamento Nacional de Combustíveis (DNC), os postos incluem os décimos de centavos no valor. Em 2012, o governo do Estado criou uma lei que determina a supressão do terceiro dígito.

Alegando a inconstitucionalidade da legislação, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes no RS (Sulpetro) optou por manter as três casas decimais. Enquanto isso, a pendenga segue na Justiça.

Se, para quem paga, o R$ 0,001 pode parecer pouco, para os postos e distribuidoras aquele numerozinho quase insignificante muitas vezes faz diferença.

– Um décimo de centavo, para quem abastece um tanque de 50 litros, praticamente não faz diferença (R$ 0,05). Mas, para quem vende 400 mil litros por mês, faz muita diferença (R$ 400) – exemplifica o presidente do Sulpetro, Adão Oliveira.

A suposta insignificância dos centavos foi abordada com humor no filme Como Enlouquecer seu Chefe, de 1999. Nele, três colegas de trabalho montam um golpe, visando a desviar para uma conta particular as pequenas frações de centavos nas transações bancárias da empresa. No fim, o golpe dá tão certo que o trio, que esperava lucrar alguns poucos dólares, acaba ficando milionário.

Na vida real, centavos têm se transformado em milhares de reais em doações para instituições públicas. Por meio de uma campanha iniciada em 2010, como forma de reduzir o problema da escassez de moedas, a rede de supermercados Zaffari oferece aos clientes a possibilidade de doar o troco de suas compras para hospitais. Até ontem à tarde, o valor doado às entidades desde o começo da campanha ultrapassava os R$ 729 mil.

No dia a dia, as queixas contra a falta de troco são frequentes. O comerciante Jair Lamm, dono de uma padaria no bairro Menino Deus, na Capital, diz que a falta de troco chega a causar atritos com clientes:

– Às vezes, as pessoas culpam a gente por não ter troco. Mas, se o banco não te dá troco, tu também não tem como dá-lo para o cliente.

Diante da constante falta de moedas, especialmente de R$ 0,01, o mercado adotou uma espécie de regra informal de arredondamento – na falta de moedas de R$ 0,01, os trocos de R$ 0,08 viram R$ 0,10, e os de R$ 0,07, transformam-se em R$ 0,05. Mas alguns comerciantes, como Lamm, preferem arredondar para baixo, ficando com o ônus dos centavos perdidos. Outros fazem o contrário.

A diretora do executiva do Procon Porto Alegre, Flávia do Canto Pereira, recomenda que os consumidores nunca aceitem receber a menos do que o troco completo, mesmo sob a alegação de arredondamento do valor:

– Isso não pode, porque é contrário à legislação. Não pode receber mais, nem menos. O consumidor não deve aceitar.

O menino econômico e sua pirâmide

Durante 10 meses, João Pedro Pariz Chiappa, 8 anos, juntou moedas de todos os valores. No começo do ano, a servidora pública Débora Pariz, surpreendeu-se com o valor guardado pelo filho: R$ 298, suficientes para a compra de um brinquedo com o qual Pedro sonhava havia muito tempo: uma pirâmide Playmobil:

– Durante esse tempo, fui preparando ele, porque talvez não desse para trocar pelo brinquedo, pois era muito caro. Mas, no dia em que resolvemos trocar as moedas, o brinquedo estava em promoção, pela metade do preço.

Motorista ataca cofrinho para estacionar

Antes de partir de carro em direção a uma região onde precisará utilizar parquímetros para estacionar, o economista Paulo Roberto Ríspoli, 70 anos, já se prepara, pegando no cofrinho algumas das moedas de R$ 0,50 ou R$ 1 que costuma guardar.

No viaduto Dom Pedro I, o lavador de carros João Carlos da Fonseca Júnior atua como uma espécie de "banco de moedas" para os motoristas que chegam desavisados para estacionar na Área Azul:
– Todo dia vem gente trocar moeda comigo. A moeda é escassa, está valendo ouro – diz.

Curiosidades

Relíquias

Colecionadores pagam até R$ 100 por cédulas de R$ 1, fora de circulação há alguns anos, em bom estado de conservação
Magnetismo
Moedas de R$ 1 e R$ 0,50 fabricadas com cupro-níquel e alpaca, não são atraídas por ímãs
Quase nada
Centavo da moeda do Uzbequistão, o tiyin vale apenas 0,001 de centavo de real
Extinto
Com produção mais cara do que o valor de mercado, o dólar canadense deixou de ser produzido

Fonte! Chasque de Marcelo Monteiro, publicano no jornal eletrônico de Zero Hora de Porto Alegre. Abra as porteiras:
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/economia/noticia/2013/03/um-centavo-e-relegado-por-cidadaos-mas-em-escala-faz-diferenca-para-empresas-4091077.html.