segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Turbulência mundial provoca queda nas bolsas

Analistas dizem que não é hora de vender ações, mas um bom momento de entrar no mercado de capitais
Arte de Gabriela Lorenzon / JC
A turbulência nos mercados financeiros dá sinais de estar só começando. Mas é a hora de sair da bolsa? Com a queda forte das ações, quem vender agora vai amargar um prejuízo grande, que pode ser revertido no longo prazo, já que a tendência do mercado em um período maior de tempo é sempre de alta, dizem especialistas.

Na semana passada, a Bovespa registrou desvalorização de 10% - acumulando queda de 23,6% no ano. Com o rebaixamento da dívida americana, o risco aumentou e os investidores podem deixar o pânico tomar conta. Para reverter o prejuízo, porém, é preciso ter sangue frio para ver seu patrimônio diminuir ainda mais antes de a recuperação chegar.

Além disso, analistas apontam que pode ser uma boa hora para entrar na bolsa, já que muitos papéis estão bem abaixo do preço que realmente valem. “Para quem colocou só uma pequena parte do patrimônio na bolsa não faz diferença essa crise, ele pode esperar para recuperar o dinheiro”, diz o consultor Mauro Calil, da Calil & Calil. “Quem apostou todas as fichas fica sem dormir. Agora, deve escolher se realiza o prejuízo ou se vai comprar mais, aproveitando o preço baixo.”

Alexandre Espírito Santo, do Ibmec-RJ, aconselha o investidor a começar a aplicar pequenas quantias, com o longo prazo em mente. “As pessoas ganham na bolsa quando entram enquanto o mercado está barato e saem quando está caro.” Para ele, há nesse momento muitos papéis de boas empresas com preços realmente vantajosos para quem tem um horizonte de longo prazo.

Leandro Martins, analista-chefe da Walpires Corretora, cita duas ações com boa negociação e preços já bastante defasados: BM&FBovespa e Usiminas - as duas subiram mais de 5% na sexta-feira. “E se a tendência de queda persistir até o fim do ano, uma opção é procurar as chamadas ações defensivas, que pagam bons dividendos.” Ele cita empresas de energia e telefonia, além de outras boas pagadoras de dividendo, como a Souza Cruz.

Especialistas respondem as principais dúvidas sobre a repercussão da crise nas aplicações

1 - A crise chegará aqui?
Sim, uma recessão global derruba a demanda e o preço das commodities, prejudicando as exportações brasileiras, desacelerando a economia e afetando o mercado de trabalho. Se o dólar subir, pode elevar o preço dos importados e pressionar a inflação, já em alta no País. O Brasil também pode ter dificuldade para captar recursos para financiar obras de infraestrutura.

2 - É hora de sair da bolsa?
Quem não vendeu antes deve agora aguardar para recuperar o dinheiro aplicado, quando a Bolsa voltar a subir. Quem não tiver sangue frio pode vender uma parte das ações, aplicar em renda fixa ou comprar depois os mesmos papéis por um preço menor, reduzindo o prejuízo.

3 - Chegamos ao fundo do poço? É hora de comprar?
Ninguém sabe se o piso foi atingido. Quanto mais a bolsa cai, mais chance tem de subir. Porém, a recuperação só virá quando as incertezas globais diminuírem, o que pode demorar semanas ou anos. Pode valer a pena entrar agora, mas há risco de cair ainda mais.

4 - Devo reduzir o percentual de ações no fundo de previdência privada?
Não. Previdência é aplicação de longo prazo, quando aumentam as chances de recuperação. Quem sair na baixa poderá perder a subida da bolsa.

5 - Os juros baixos nos EUA e Europa são sustentáveis com maior risco de calote?
As taxas de juros costumam refletir o risco, que aumentou. Porém, os governos desses países - emissores e pagadores de juros - reduzem as taxas para impulsionar suas economias.

6 - Devo resgatar o FGTS aplicado em Vale e Petrobras?
Não é possível resgatar o dinheiro, salvo nos casos previstos (casa própria, doença, demissão etc). Quem sair das ações terá o dinheiro devolvido ao fundo, que rende 3% mais TR e perde para inflação. Por isso, é melhor esperar.

7 - Posso pagar menos IR com a bolsa em baixa?
O investidor pode descontar o prejuízo apurado em uma operação do IR incidente no ganho de capital obtido com ela. As corretoras têm ferramentas que ajudam a fazer isso.

8 - É hora de tirar dinheiro do banco e comprar imóveis?
Os imóveis já estão caros e as aplicações têm retorno garantido. Se houver retração na economia, o ritmo de alta vai desacelerar havendo possibilidade de redução de preços.

9 - Poupança, CDB e renda fixa serão afetados?
Não, devem continuar com taxas altas, atraindo cada vez mais investidores, devido ao aumento recente do juro.

10 - Vou viajar ao exterior. Devo comprar dólar já?
O ideal é observar o movimento da moeda, que pode subir, e ir comprando pequenas quantidades até a viagem. Caso o dólar suba, já se terá comprado com um valor menor. Se ocorrer o contrário, poderá se beneficiar de um preço melhor.

Renda fixa atrai investidores em época de instabilidade

A bolsa está arriscada e os mercados nervosos? O Brasil ainda tem os maiores juros do planeta para aplicações em renda fixa com baixo risco, que atraem investidores de todo o mundo em época de instabilidade global. São investimentos que têm rendimento bruto perto de 12,5%, a nova taxa de juros da dívida pública (Selic). Uma taxa que pode voltar a cair no início de 2012 se a crise segurar a inflação e a economia precisar de estímulo.

Para o investidor pessoa física, a melhor opção em renda fixa está no Tesouro Direto, site do governo que vende aos pequenos aplicadores títulos com o mesmo valor e taxa que oferece a bancos e fundos de investimento gigantes.

Quem precisar do dinheiro pode vender os papéis às quartas ao próprio Tesouro. Os CDBs só dão taxas boas (perto da Selic) para grandes investidores e os fundos de investimento cobram taxas de administração pesadas para pequenos volumes, tornando o retorno menor do que o da poupança.

Na semana passada, os papéis da dívida prefixada (que têm uma taxa predefinida) voltaram a subir com a perspectiva de redução dos juros em 2012. Antes do agravamento da crise, os investidores se voltavam para títulos pós-fixados, como as LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), que pagam taxa Selic e têm menor risco de flutuação.

No Tesouro Direto era possível comprar na sexta uma LTN (Letra do Tesouro Nacional) com vencimento em 2017 com taxa de 12,47%. Para janeiro de 2013, a taxa era de 12,31% - embutia queda de 0,25 ponto nos juros em 2012. “É muito provável que haja uma migração de títulos pós para prefixados”, disse Alexandre Espírito Santo, professor do Ibmec-RJ.

Para Fabio Colombo, administrador de investimentos, os pós-fixados ainda deverão render mais do que os prefixados em agosto por conta do aumento de juros. “São opções de diversificação para investidores moderados e agressivos”, disse. “Dentro da corretora, o investidor tem a opção de aplicar no Tesouro Direto, que é mais barato e menos arriscado que um CDB ou um fundo. É um jeito de manter o dinheiro na corretora, para, quando a Bolsa voltar a subir, levar rapidamente os recursos de volta às ações”, disse Leandro Martins, da Walpires.

Fonte! Chasque publicado na edição do dia 08 de agosto de 2011, do Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS.