quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Brasileiro tem dificuldade de controlar orçamento


A principal dica é saber quanto gastar e poupar para
eventualidades /JOÃO MATTOS/ARQUIVO/JC

É quase impossível resistir às liquidações de janeiro. Em fevereiro, você faz as contas para ver se é possível viajar no Carnaval. Nos meses seguintes, também não vão faltar promoções e ofertas de bens e serviços que podem comprometer uma (boa) parte da sua renda. Tudo isso, em um cenário de juros mais baixos, inflação sob controle e volta do emprego, pode levar a um consumo desenfreado e ao endividamento sem necessidade. Por isso, especialistas recomendam controlar o orçamento e dosar bem cada compra ao longo do ano.

Há motivo para tanta cautela. O número de inadimplentes (aqueles com dívidas vencidas há mais de 90 dias) no Brasil passa dos 61 milhões, e boa parte deles está em listas de cadastro negativo devido ao descontrole financeiro. Ou seja, gasta mais do que recebe. Claro, o desemprego contribuiu para isso, mas o universo de pessoas sem trabalho é bem menor: 12,6 milhões.

Segundo especialistas, como ficar sem consumir ou não fazer dívidas é quase impossível, a saída é saber o quanto gastar e quando tomar um empréstimo ou fazer parcelamentos. E, junto com tudo isso, ter uma reserva financeira para eventuais contratempos. "As promoções sempre vão existir. Mas você tem de aproveitá-las quando precisa daquele bem, não comprar algo apenas porque está em promoção", explica o educador financeiro André Bona.

A mesma lógica vale para dívidas, incluindo aí o parcelamento do cartão. Quem recorre a essa alternativa está usando um dinheiro que ainda não ganhou e assumindo um risco de não ter como quitar essa dívida no futuro. "Se o uso desse parcelamento ocorrer de maneira desregrada e houver um imprevisto, que nem precisa ser o desemprego, essa pessoa não vai ter sobra de recursos no orçamento, porque está tudo comprometido com dívidas", diz Bona.

Na avaliação de Bona, mesmo o parcelamento sem juros deve ser evitado. Mas, se não houver outra saída, que seja usado na compra de bens de maior durabilidade, como eletrodomésticos. "Não faz sentido parcelar as compras do supermercado, porque esse é um gasto recorrente. Mas, quando necessário, ele pode ser utilizado para gastos não recorrentes, como a compra de móveis para a casa, que vão durar alguns anos", afirma.

O brasileiro compromete com o pagamento de dívidas bancárias 41,4% de sua renda, incluindo aí os gastos com financiamentos imobiliários - sem estes, o endividamento fica em 23%. O dado do Banco Central, porém não inclui outros compromissos financeiros, como o pagamento de contas de consumo.

Então, para passar longe da lista de superendividados, ou mesmo para não ficar inadimplente, a recomendação é controlar seus gastos. Especialistas apontam, porém, o hábito do brasileiro de superestimar suas receitas, como considerar seu rendimento bruto (sem o Imposto de Renda e outros abatimentos) e subestimar as despesas.

Para não cometer este erro, a dica é, por um mês, fazer o registro de tudo o que é gasto e de todos os recursos que entram na conta-corrente ou no bolso. Sabendo o que se gasta e o que se ganha, fica mais fácil visualizar quais são as grandes despesas que podem ser reduzidas, as compras que têm prioridade e quanto deve ir para a reserva financeira.

Falta de reserva financeira é comum entre a população, lembram educadores

Reinaldo Domingos, do canal Dinheiro à Vista, no YouTube, considera que o grande problema do brasileiro é a falta de autonomia financeira, decorrente do descontrole entre gastos e receitas. "O problema do brasileiro é não ter uma reserva estratégica. Em qualquer eventualidade, fica sem dinheiro. Ele faz as contas olhando só o mês seguinte, mas é preciso olhar mais à frente e se planejar", assegura.

Quanto à reserva financeira, diz, o ideal é que seja o equivalente a três salários da pessoa, ou, no mínimo, a um salário. "É preciso fazer essa reserva. Se não conseguir, é porque é hora de reduzir as despesas. Ter um padrão de vida compatível com o que se ganha", afirma Domingos.

Para quem está inadimplente, a dica é usar 70% do salário para os gastos mensais, 20% para o pagamento da dívida e 10% para a reserva estratégica. Se a dívida está em atraso há muito tempo - por exemplo, há mais de um ano -, a recomendação é juntar os recursos para pagá-la à vista, com desconto.

Para os educadores financeiros, controlar gastos é importante, porque o aumento do otimismo do consumidor pode levar a gastos desnecessários. "Há perspectiva de melhora gradativa no varejo e, aos poucos, o consumidor passa a ter uma percepção de mais otimismo no cenário econômico, reflexo da queda na taxa de juros e do desemprego", diz César Fukushima, economista-chefe da Mastercard Advisors. 

Fonte! Chasque (reportagem) publicado nas páginas do Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS, na edição do dia 02 de janeiro de 2018.