domingo, 22 de novembro de 2015

O clube peculiar dos acionistas milionários de Warren Buffett


Ele registrou a ocasião na memória e, dois anos mais tarde, o comerciante de trens de brinquedo colecionáveis reuniu dinheiro suficiente para comprar suas primeiras ações da Berkshire Hathaway Inc., por US$1.300 cada. Prendeville colhe, até hoje, os frutos dessa decisão.

“É a minha reserva de segurança”, diz o acionista de 64 anos, em referência às ações. Algumas delas hoje são negociadas por mais de US$ 200 mil cada.

Nos 50 anos desde que assumiu o comando da Berkshire, Buffett transformou uma fábrica têxtil em dificuldades em um enorme conglomerado que movimenta anualmente US$ 200 bilhões em receita, criando no processo uma legião de improváveis milionários, e até alguns bilionários.

Um desses acionistas é Frank Fitzpatrick, um advogado tributário de Lake Tahoe, no Estado americano de Nevada, apelidado de “Forty-Dollar Frank” (Frank Quarenta Dólares). Ele geralmente se apresenta usando esse apelido porque esse é o preço que pagou por suas primeiras ações da Berkshire.

Fitzpatrick lembra que no início de 1976 adquiriu cerca de 200 ações a esse preço e, quando as vendeu 14 meses mais tarde, elas haviam dobrado de valor. À medida que a ação continuava a crescer, ele lamentou a decisão e voltou a comprá-las a um preço ainda mais elevado. Desde então, “eu me habituei a voltar correndo para a Berkshire”, diz Fitzpatrick.

Em 1995, após a compra de uma casa à beira do lago Tahoe, Fitzpatrick diz que sua família se reuniu no deque e, abraçados, todos repetiam: “Obrigado, Warren.” Hoje, aos 72 anos, ele diz que usa parte de suas ações da Berkshire para financiar uma fundação educacional sem fins lucrativos e que vai deixar o resto para seus dois filhos.

A primeira leva de acionistas da Berkshire usou suas ações para financiar a educação dos filhos, comprar casas e cobrir garantias de empréstimos. Centenas de milhões de dólares de ações já foram doadas a universidades nas quais os acionistas estudaram, instituições culturais e de pesquisa médica.

À medida que esses investidores envelhecem com Buffett, que já completou 85 anos, eles também consideram a melhor maneira de repassar seus patrimônios. Buffett prometeu doar a maior parte de sua fortuna de US$ 62 bilhões para causas filantrópicas e já entregou mais de US$ 25 bilhões. Ele disse em uma entrevista ao The Wall Street Journal esperar que um “percentual elevado dos grandes acionistas individuais” façam o mesmo.

Para os acionistas da empresa, o presidente da Berkshire possui um carisma especial e seu poder de influência ajuda a explicar como muitos deles veem sua própria riqueza.

O investidor bilionário ainda vive na mesma casa que comprou em 1958 por US$ 31.500. Muitas vezes ele toma café da manhã de dois dólares em um McDonald’s perto de seu escritório e paga a si mesmo um salário de US$ 100 mil por ano. Muitas vezes, ele é visto dirigindo seu Cadillac pela cidade.

Como Buffett, os acionistas da Berkshire são um grupo incomum. Uma vez por ano, dezenas de milhares deles, de gestores de dinheiro e executivos de empresas a agricultores e rabinos, se reúnem em Omaha para a assembleia anual da Berkshire. Na ocasião, suas peculiaridades ficam expostas.

Em um jantar anual organizado por um pequeno grupo de acionistas durante a assembleia, a conta do restaurante é dividida entre muitos. Os garçons em Omaha dizem que os acionistas da Berkshire são mesquinhos na hora de dar gorjeta.

Antes de o número de acionistas atingir dezenas de milhares, Buffett costumava manter contato com cada um deles. A partir dos anos 70, à medida que a notoriedade de Buffett crescia, a base de acionistas da Berkshire disparou.

Há centenas de milionários da Berkshire só na área de Portland, no Estado de Oregon, graças a um gestor de recursos de lá, que teve a perspicácia de comprar ações em nome de clientes há quarenta anos.

O gestor de recursos, Mark Holloway, descobriu Buffett no início dos anos 70, depois que o famoso investidor Ben Graham, mentor de Buffett, aconselhou aos dois que se conhecessem. Buffett não tinha tempo, mas Holloway disse que começou a comprar as ações para si próprio e para os clientes da sua empresa.

Os clientes pagaram até US$ 400 pela ação e receberam, em média, não mais que 12 ações cada. Hoje, várias centenas deles são clientes milionários de Holloway, que continua administrando cerca de US$ 50 milhões de capital próprio e de seus clientes, diz.

Os acionistas que desejarem vender suas ações teriam de arcar com uma enorme conta fiscal, devido ao grande salto no valor das ações. As doações de caridade, no entanto, estão isentas de imposto e são dedutíveis de impostos federais. “A filantropia é uma maneira inteligente e boa de se livrar da ação, diz Andy Kilpatrick, autor de um livro de 1.286 páginas sobre a Berkshire.

Jim Halperin, um acionista que fundou uma empresa de leilões de moedas raras em Dallas, comprou suas primeiras ações da Berkshire em 1995, quando elas eram negociadas a cerca de US$ 30.000. Sua participação vale hoje cerca de US$ 19 milhões.

Halperin, 62, diz que reviu suas opiniões sobre a filantropia depois de Buffett anunciar, em 2006, que iria doar a maior parte de sua fortuna principalmente para uma fundação dirigida por Bill Gates, um dos fundadores da Microsoft Corp. Halperin hoje doa cerca de 25% de sua receita anual para organizações locais de caridade e ele e a esposa também planejam doar a maior parte de sua fortuna.

Em março, Bill e Ruth Scott, residentes em Omaha, se juntaram à iniciativa de Gates e Buffett para instigar bilionários do mundo a doar pelo menos metade de suas fortunas para causas filantrópicas.

Scott foi o primeiro funcionário da empresa de investimento de Buffett no início dos anos 60 e passou sua carreira na Berkshire, acumulando ações suficientes para ficar muito rico. “Ruth, uma garota do campo, gosta de comparar uma pilha de dinheiro com uma pilha de esterco”, escreveram Bill e Ruth a Buffett. “Nenhum dos dois faz muito bem a não ser que você os espalhe.”

Fonte! Este chasque (reportagem) é de  Anupreeta Das, publicado no dia 30 de outubro de 2015, no sítio em português do The Wall Street Journal. Abra as porteiras clicando em