terça-feira, 12 de junho de 2018

Energia solar atinge crescimento histórico

Fonte fotovoltaica atrai investidores privados e
consumidores /JOÃO MATTOS/ARQUIVO/JC

Uma das soluções de energia limpa que mais tem atraído a atenção dos investidores privados e consumidores é a solar fotovoltaica, que oferece a possibilidade de pessoas gerarem sua própria energia, a denominada microgeraçã


o distribuída. E essa alternativa poderá ser amplamente aproveitada após o anúncio do maior investimento em energia solar já feito pelo governo. Serão quase R$ 3,2 bilhões que irão financiar a instalação de placas fotovoltaicas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O objetivo é incentivar a geração própria em residências e estabelecimentos comerciais através de juros mais baixos que os praticados no mercado e prazos mais longos para pagamento. Até então, o financiamento para viabilizar o uso desse tipo de energia só era permitido para pessoas jurídicas e agricultores.

Para a especialista em energia solar Cátia Stoyan, este investimento é o grande salto que o setor de energia solar precisava. "Com mais de 32 mil sistemas instalados em geração distribuída, sendo 99% de energia solar em residências, pequenos comércios, indústrias e zona rural, o setor espera chegar em mais de 1 milhão de sistemas instalados até 2024. A energia solar estará em outro patamar", prospecta a também CEO e fundadora da SS Solar, empresa pioneira no Brasil em soluções para energia solar fotovoltaica.

Além desse investimento bilionário, o Brasil acaba de atingir a marca histórica de 252 MW de potência instalada em sistemas de microgeração e minigeração. São mais de 27 mil sistemas solares fotovoltaicos conectados à rede. Além da maior conscientização ambiental, este número proporciona economia a 32.924 sistemas solares fotovoltaicos instalados, o que representa mais de R$ 1,9 bilhão em investimentos acumulados desde 2012. Há seis anos, apenas 13 locais geravam eletricidade dessa fonte no Brasil (antes, os raios solares eram utilizados apenas para sistemas de aquecimento de água). Em 2016, o setor registrou um crescimento de 270%; em 2017, 304% e a projeção para 2018 é de 358%.

O avanço brasileiro neste setor também é resultado tanto da inauguração de grandes usinas fotovoltaicas, quanto da adesão de consumidores individuais ao novo sistema. Foi o consumidor residencial quem alavancou o número de sistemas fotovoltaicos em operação no País - a chamada "geração distribuída". Dessas mais de 32 mil unidades instaladas, 77,4% estão em residências. Em seguida, aparecem as empresas dos setores de Comércio e Serviços (16%), consumidores rurais (3,2%), indústrias (2,4%), poder público (0,8%) e outros tipos, como serviços públicos (0,2%) e iluminação pública (0,03%). Já, em relação à potência, os consumidores dos setores de comércio e serviços lideram o uso da energia solar fotovoltaica, com 42,8% da potência instalada no País, seguidos de perto por consumidores residenciais (39,1%).

Alguns fatores ajudam a explicar essa crescente adesão. Há seis anos, uma resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a produção própria de energia elétrica de fontes renováveis e possibilitou o repasse do excedente à rede pública de distribuição de energia em troca de desconto na conta de luz. Em 2015, outras facilidades foram incorporadas à norma. Os créditos gerados pelos consumidores passaram a valer durante cinco anos - e não apenas por três, como determinava a primeira regra. Os modelos também se diversificaram. Agora são permitidos sistemas de consumo coletivo, como condomínios e shoppings, e de consumo remoto - quando a energia é produzida num local e consumida em outro dentro da área de concessão de uma distribuidora.

Aumento das tarifas incentiva investimentos

O maior impulso para o mercado de microgeração e minegeração veio com o aumento das tarifas de energia. Desde 2012, o reajuste médio do preço da energia no País foi de 44%, acima da inflação de 36% registrada no período. Enquanto isso, o avanço da tecnologia de produção dos equipamentos fez o preço cair cerca de 80% na última década em todo o mundo e tornou a conta ainda mais vantajosa.

Hoje, a instalação de quatro painéis solares com capacidade total de 1,25 megawatt (o suficiente para suprir as necessidades de uma família de quatro pessoas) custa R$ 15 mil. Em 2015, era de R$ 30 mil. "Os números mostram que o investimento caiu pela metade e que o retorno é garantido. O outro ponto muito importante é a previsibilidade que a energia solar proporciona. Com ela, o consumidor só tem o custo do investimento e não fica sujeito ao aumento das tarifas ou à falta de chuva", explica a especialista em energia solar Cátia Stoyan.

Sem levar em conta as usinas em fase de projeto e construção, a geração solar atingiu a marca de 1 gigawatt de capacidade instalada no País no final do ano passado. O montante significa uma fatia inferior a 1% da matriz elétrica brasileira, amplamente apoiada na geração hidrelétrica. Mas a participação pode chegar a 5%, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). Para isso, o volume de recursos nesse mercado deverá chegar a R$ 9 bilhões neste ano e se manter nesse nível.

A estimativa com base numa projeção da Empresa de Pesquisa de Energia é de que o País deverá alcançar 25 GW de capacidade instalada, por meio de investimentos de mais de R$ 125 bilhões até 2030. Indicadores apontam ainda que até 2040, 32% da matriz elétrica brasileira será de fonte fotovoltaica, seguida por 29% da hídrica, 12% da eólica, e as demais na sequência. 

Setor gera cerca de 3,4 milhões de empregos 

Segundo dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), o setor de energia renovável criou mais de 500 mil novos empregos em todo o mundo em 2017, um aumento de 5,3% em relação a 2016. A quinta edição do relatório Renewable Energy and Jobs - Annual Review, lançado recentemente na Reunião do Conselho da Irena, em Abu Dhabi, mostra que o total de pessoas empregadas no setor, inclusive em grandes hidrelétricas, está atualmente em 10,3 milhões, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 10 milhões.

Para Irena, o setor de energia solar fotovoltaica continua sendo o maior empregador entre todas as tecnologias de energia renovável e responde por aproximadamente 3,4 milhões de empregos, quase 9% a partir do ano de 2016, depois de atingir um recorde de 94 GW de instalações em 2017. É estimado que a China tenha dois terços dos empregos no segmento de energia solar fotovoltaica, o que equivale a 2,2 milhões e representa 13% de expansão em comparação ao ano anterior.

China, Brasil, Estados Unidos, Índia, Alemanha e Japão seguem como os maiores empregadores do mercado de energia renovável no mundo e representam mais de 70% de todos os empregos no setor globalmente, segundo a Irena. Juntos, os cinco países respondem por cerca de 90% dos empregos em energia solar fotovoltaica.

A agência estima que a economia global pode criar até 28 milhões de empregos no setor de energia renovável até o ano de 2050. Muitos países reconhecem que o crescimento econômico baseado em tecnologias de baixo carbono é importante e além de tudo muito atrativo. Países que possuem políticas e estruturas regulatórias favoráveis ao setor colhem maiores benefícios sociais, econômicos e ambientais. A energia solar fotovoltaica é uma das fontes que mais gera empregos diretos e indiretos. Segundo representantes do Greenpeace os postos de trabalho criados são na cadeia de produção e instalação dos sistemas solares. Até mesmo a micro geração distribuída abre vagas de empregos em todas as partes do mundo. Pequenos sistemas fotovoltaicos instalados de 20 MW empregam 600 pessoas. Esse número pode se multiplicar com a instalação das usinas solares contratadas nos leilões.

A estimativa é que uma usina solar de 1 GW gere 3 mil empregos. Segundo Adnan Z. Amin, diretor-geral da Irena, a redução dos custos e políticas favoráveis impulsionaram o investimento e, por consequência, os empregos em energias renováveis em todo o mundo. Nos últimos quatro anos, por exemplo, o número de empregos nos setores solar e eólico mais do que dobrou.

Outros estudos mostram que quanto mais crescem os projetos de energia solar no País, simultaneamente, crescem as oportunidades de emprego. Para este ano, estima-se que surjam entre 60 a 99 mil oportunidades de trabalho no setor. Essas oportunidades de emprego deverão ser criadas conforme o desenvolvimento do mercado de energia solar brasileiro. 

Fonte! Chasque (matéria) publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS, no caderno JC Logísitica, na edição dos dias 01, 02 e 03 de junho de 2018.