quinta-feira, 26 de março de 2026

IR 2026: contribuintes reclamam de erros na pré-preenchida; saiba como revisar dados

Mudança em informe das fontes pagadoras explica falhas; Receita em SP reforça necessidade de checagem pelo contribuinte 

Fim da DIRF pode explicar maior volume de erros na declaração pré-preenchida. Foto: Adobe Stock 

O prazo para a entrega do Imposto de Renda 2026 começou nesta semana e a declaração pré-preenchida, que inicia com diversos campos completos, já está disponível. Nas redes sociais, no entanto, os contribuintes têm reclamado sobre erros e informações incompletas encontradas no documento.

Procurada pelo E-Investidor, a Receita Federal em São Paulo afirmou que grande parte dos dados da pré-preenchida são enviados por terceiros, como instituições financeiras, planos de saúde e empregadores. “A pré-preenchida é uma excelente ferramenta para iniciar a declaração, mas cabe ao contribuinte conferir os dados e verificar se estão de acordo com as transações efetivamente ocorridas no ano-calendário anterior”, disse em nota.

O órgão também salientou que o sistema para envio do IR passou por instabilidades pontuais na segunda-feira (23), primeiro dia de entrega do documento, mas atingiu a marca de 1,5 milhão de declarações entregues, dentro da média histórica do período.

Em coletiva de imprensa sobre as regras do IR 2026, a Receita Federal já havia alertado para o risco de maior volume de erros na pré-preenchida deste ano, após o fim da Declaração do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (DIRF).

A DIRF era um documento enviado por fontes pagadoras – empresas que efetuam pagamentos e retêm IR na fonte – à Receita. Essa forma de declaração foi extinta para fatos geradores ocorridos a partir de 1º de janeiro de 2025 e substituída por dois novos sistemas: o eSocial e a Escrituração Fiscal Digital de Retenções e Outras Informações Fiscais (EFD-Reinf).

“É preciso ter bastante cuidado com a declaração pré-preenchida neste ano. Já tínhamos experiência com a DIRF, mas esse sistema deixou de existir. Agora, os dados vêm do eSocial e da EFD-Reinf, o que representa uma nova etapa na captação de informações das fontes pagadoras”, afirmou José Carlos da Fonseca, responsável pelo programa do Imposto de Renda 2026.

Segundo Fonseca, a Receita já havia identificado informações enviadas por empresas que não estavam totalmente corretas. “Podemos ter problemas na pré-preenchida, porque não fazemos um filtro. As informações enviadas pelas fontes pagadoras entram diretamente na pré-preenchida”, disse.

Outra mudança em 2026 é que o documento foi alimentado por dados da Receita Saúde, plataforma que reúne recibos eletrônicos de despesas médicas. Desde o ano passado, o sistema passou a ser obrigatório para dentistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, médicos, psicólogos e terapeutas ocupacionais.

Com essa novidade, a Receita espera reduzir o número de declarações na malha fina, já que os recibos médicos em papel eram uma das principais causas de problemas no IR.

Como revisar os dados da pré-preenchida?

Francisco Paludo, advogado tributarista e sócio na Tahech Advogados, recomenda que os dados da pré-preenchida sejam tratados apenas como um rascunho. “Tudo precisa ser validado e conferido nos centavos e deve estar de acordo com os documentos que o contribuinte têm. Já era assim e agora essa verificação tende a ser mais importante ainda, pelos novos dados migrados recentemente”, afirma.

O advogado destaca que a responsabilidade pelas informações enviadas é toda do contribuinte, mesmo usando a pré-preenchida. O formato do documento facilita a declaração do IR, mas não está livre de erros.

Na hora de revisar os dados, os documentos oficiais de apoio são essenciais. Fátima Macedo, vice-presidente financeira da Associação das Empresas de Serviços Contábeis do Estado de São Paulo (Aescon-SP), divide esses documentos em quatro grupos.

Primeiro, entram os informes de rendimentos das fontes pagadoras — como o empregador e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — que servem de base para conferir os rendimentos e o imposto retido. Também devem ser considerados os informes das instituições financeiras, que reúnem os ganhos com investimentos, saldos em conta e a posição de empréstimos e financiamentos.

“Além disso, é fundamental ter em mãos os comprovantes do plano de saúde, incluindo os reembolsos recebidos, para evitar a dedução de valores superiores ao que foi efetivamente pago, bem como recibos e notas fiscais de despesas médicas particulares, como consultas, exames e procedimentos. Por fim, entram os comprovantes de outras despesas dedutíveis, como educação e previdência privada”, acrescenta.

Os principais erros que podem aparecer na pré-preenchida

Com o fim da DIRF, o principal ponto de atenção neste ano está nas informações sobre rendimentos do trabalho, como salários, aposentadorias e demais valores sujeitos à retenção na fonte, justamente por serem dados alimentados pelo eSocial e pela EFD-Reinf.

Emiliana Lucatteli, especialista em legislação da Questor, explica que as empresas que preenchem o novo sistema podem ter informado incorretamente os novos campos do eSocial, como deduções de dependentes, pensão alimentícia, previdência complementar e plano de saúde.

Como houve mudança na forma como profissionais de saúde emitem recibos, também vale ficar de olho nas informações sobre despesas com saúde. “Outras inconsistências comuns são saldos zerados de contas bancárias, ausência de dados sobre investimentos, falhas na informação de dependentes e erros em nomes de instituições financeiras”, acrescenta Lucatteli.

Os dados que vêm e os que não vêm na pré-preenchida

A declaração pré-preenchida está mais completa em 2026. O documento agora recupera automaticamente dados de pagamentos feitos por meio de Documento de Arrecadação de Receitas Federais (DARFs). Além disso, contribuintes que utilizam o sistema ReVar, voltado ao controle de operações em renda variável, já terão essas informações importadas para a pré-preenchida.

A Receita também passou a incorporar informações do eSocial referentes a empregados domésticos. Outra novidade é a melhoria na recuperação automática de dados de dependentes: aqueles que estiverem cadastros regularmente no CPF e já tiverem sido informados nas declarações dos últimos três anos poderão ter suas informações importadas sem a necessidade de autorização específica.

Veja outras informações que estão na pré-preenchida em 2026:

  • Informações da declaração anterior do contribuinte, como dados pessoais e endereço;
  • Rendimentos e pagamentos informados por meio de fontes pagadoras, Declaração de Informações sobre Atividades Imobiliárias (DIMOB), Declaração de Serviços Médicos e de Saúde (DMED), Carnê-Leão Web, E-Financeira, Declaração sobre Operações Imobiliárias (DOI) e Declaração de Benefícios Fiscais (DBF);
  • Rendimentos isentos em função de moléstia grave e códigos de juros;
  • Rendimentos de restituição recebidas no ano-calendário;
  • Contribuições de previdência privada;
  • Atualização do saldo de conta bancária e poupança;
  • Atualização do saldo de fundos de investimento;
  • Imóveis adquiridos no ano-calendário;
  • Doações efetuadas no ano-calendário;
  • Informações de criptoativos;
  • Conta bancária e poupança ainda não declarada;
  • Fundo de investimento ainda não declarado;
  • Contas bancárias no exterior.

Apesar dos avanços, Beatriz Itikawa, advogada tributarista do SouzaOkawa, explica que a pré-preenchida ainda não contempla todos os dados do contribuinte, especialmente aqueles que dependem de apuração individual. “É o caso de ganhos de capital na venda de bens, operações mais complexas em renda variável e atualização de bens e direitos”, exemplifica.

Neste ano, há mais um ponto de atenção: a inclusão de campos específicos para declarar ganhos com bets. Essas informações não aparecem na declaração pré-preenchida e devem ser informadas pelo próprio contribuinte na ficha de rendimentos, no campo “Prêmios líquidos obtidos em loterias de apostas de quota fixa — Lei nº 14.790/2023”. Além disso, foi criado um novo código na ficha de bens e direitos – o 06.02 – destinado à declaração de saldos mantidos em contas de apostas.

Fonte! Chasque (post) de Beatriz Rocha, publicado em 25 de março de 2026 no portal E-Investidor (Estadão)https://einvestidor.estadao.com.br/educacao-financeira/ir-2026-reclamacoes-erros-pre-preenchida-como-revisar-dados/

terça-feira, 24 de março de 2026

Guardem dinheiro: um pai sustenta 5 filhos, mas 5 filhos não sustentam um pai

Brasil envelhece rápido e terá menos contribuintes; sem poupança própria, depender da Previdência ou dos filhos será cada vez mais incerto

Brasil envelhece rapidamente e terá menos contribuintes para sustentar mais aposentados. Entenda por que guardar dinheiro se tornou essencial diante da pressão sobre a Previdência. Imagem: Adobe Stock)
Brasil envelhece rapidamente e terá menos contribuintes para sustentar mais aposentados. Entenda por que guardar dinheiro se tornou essencial diante da pressão sobre a Previdência. Imagem: Adobe Stock)

O Brasil envelhece em silêncio. Vive mais, tem menos filhos e reduz a base de contribuintes. O Estado e as famílias ainda operam como se a lógica do passado fosse suficiente: que os filhos sustentem os pais, que a aposentadoria seja garantida sem planejamento, que a Previdência suporte tudo sozinha. A realidade é dura: um pai sustenta cinco filhos, mas cinco filhos dificilmente sustentarão um pai.

E não é só aritmética. É comportamento. Quando o pai envelhece, a responsabilidade quase sempre é fragmentada. Um filho acha que outro vai cuidar, outro ignora, muitos se afastam. O resultado é abandono, negligência ou dependência parcial de um sistema que já está sobrecarregado. A frase do título não é exagero: a lógica familiar se inverte e o cuidado que antes era único se dispersa.

Em 2024, havia 34,1 milhões de idosos, número que dobrou nas últimas duas décadas. A proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023 e chegará a 37,8% em 2070, cerca de 75,3 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade caiu de 110% do nível de reposição em 2000 para 75% em 2023, e deve recuar ainda mais, chegando a 69% em 2041. Menos filhos, mais idosos. Menos contribuintes, mais beneficiários. O descompasso é estrutural, não conjuntural.

O sistema previdenciário já opera no limite. A Previdência social consome mais de 12,3% do PIB e ultrapassa R$ 1 trilhão anuais, enquanto cada aumento de R$ 1 no salário mínimo adiciona R$ 420 milhões de despesa. Com menos contribuintes ativos sustentando mais beneficiários, a conta não fecha. Quem não guarda dinheiro vai depender de um sistema que não terá como pagar a fatura.

As pessoas vivem mais e dependem mais de recursos. Ao mesmo tempo, os filhos, quando existem, têm responsabilidades próprias. Cada década que passa aumenta a pressão sobre quem contribui hoje. A previdência não foi projetada para essa realidade. E quem ignora isso está se preparando para depender de outros que não terão como sustentar.

O problema é invisível para a maioria. O debate público continua centrado em promessas e discursos. Mas o fato é que o Brasil envelhece antes de enriquecer, e essa combinação é explosiva. A base de contribuintes não cresce no ritmo necessário, e cada ano adicional de expectativa de vida adiciona pressão sobre o sistema. E os dados mostram que a situação só tende a piorar.

Guardar dinheiro deixou de ser conselho e passou a ser necessidade prática. Planejamento financeiro não é luxo. É segurança. Quem acredita que pode contar com filhos ou com o Estado descobrirá que a geração seguinte não terá como sustentar a anterior. O pai sustenta os filhos hoje. Mas, amanhã, a responsabilidade será jogada de um para outro, e muitos acabarão descobrindo que não há ninguém para arcar com a conta.

O país pode adiar reformas, suavizar a retórica ou prometer mudanças futuras. Mas a equação é inexorável: menos filhos, mais idosos, mais dependência do Estado, menos capacidade de sustento familiar. E, quando essa conta finalmente chegar, cada indivíduo estará onde sempre esteve: responsável pela própria margem de segurança.

Fonte! Chasque (post) de Fabrízio Gueratto, publicado no dia 26 de fevereiro de 2026 no portal E-Investidor (Estadão)https://einvestidor.estadao.com.br/colunas/fabrizio-gueratto/guardem-dinheiro-envelhecimento-previdencia-planejamento-financeiro/