sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sistema Único de Saúde entra em coma induzido

Não é de hoje nem culpa desse ou daquele governo. Mas o fato é que o Sistema Único de Saúde (SUS) entrou em coma induzido há alguns anos. Tem respirado por aparelhos ligados a oxigênio financeiro, com espasmos oficiais. Pois, após a traqueostomia a que o SUS foi submetido pela absoluta falta de recursos federais, e aqui no Rio Grande do Sul, a situação do paciente SUS escancarou a sua gravidade.

Como mais de 50 milhões de brasileiros têm planos de saúde privados - e também nestes nota-se uma demora cada vez maior no atendimento para consultas eletivas -, apenas as classes menos favorecidas reclamavam.

A Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF), muito atacada pela oposição de então, foi abolida pela nova oposição justamente quando os que eram contra antes chegaram ao Palácio do Planalto. Na época, em que foi extinta, rendia R$ 40 bilhões ao ano, que deveriam ir para a saúde.

Aclamado como "a mais ampla cobertura de saúde gratuita do mundo", o SUS sofreu, no século XXI, as dificuldades do seu gigantismo e do avanço da medicina. Nos últimos anos, a indústria brasileira de produtos e equipamentos médico-hospitalares deu salto de qualidade e de arrojo que a fazem potencialmente competitiva. A aproximação com 'clusters médicos' internacionais, onde a integração entre indústria, área de pesquisa e poder público tem gerado avanços importantes para a saúde, começa a ser replicada aqui e a transformar a vocação produtiva de algumas regiões do País.

Mas máquinas para o chamado diagnóstico por imagem são caras e exigem bons recursos humanos e materiais. Na Capital, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), não serão mais construídas, ficando apenas aquelas que já estão em funcionamento ou em fase final de acabamento. Segundo noticiado pela Secretaria da Saúde de Porto Alegre, não tinham resolutividade. Agora, a crise chegou nos chamados hospitais filantrópicos, acendendo o sinal não amarelo, mas o vermelho.

A Santa Casa de Porto Alegre tem 600 leitos para o SUS e fará menos consultas. Como ficará? Na crise global, o governo federal cortou impostos e incentivou o consumo. Mas isso, como os remédios, tinha prazo de validade. Saciada a demanda reprimida, veio a inação pelas compras. Simultaneamente, Brasília perdeu arrecadação. Agora, tem que repor impostos e rever benefícios. É antipático, mas qual é a outra solução? Enfim, se os governos federal e estadual desligarem os aparelhos que levam o oxigênio financeiro à saúde pública, milhares sofrerão, e o paciente SUS morrerá.

Algo precisa ser feito para repor o modelo em condições razoáveis. A chamada "ambulancioterapia", hoje, foi substituída por ônibus que trazem pacientes às dezenas para os grandes hospitais da Capital, especialmente o Clínicas, o complexo Conceição e a Santa Casa, além dos particulares com parcela de atendimento pelo SUS.

O prefeito José Fortunati alertou que a rede de saúde de Porto Alegre atende 60% de pessoas do Interior do Estado e tão somente 40% da Capital. É a prova de que algo está errado na distribuição hospitalar gaúcha. Prefeituras, com ajuda federal e estadual, devem criar consórcios para hospitais de média e grande complexidade atenderem em polos regionais.

Como está, nada reverterá o óbito do SUS. Quem quer ser o assinante desse atestado terrível, como se a morte não fosse algo tão temido? Algo deve ser pensado e executado logo. E a eutanásia não é tolerada no Brasil, sabemos, mesmo quando a hipocrisia impera em alguns círculos políticos.


Fonte! Este é o editorial do Jornal do Comércio de Porto Alegre (RS), da edição do dia 07 de maio de 2015.