sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Busca por melhores condições de vida leva gaúchos a deixar o RS

 Desde a década de 70, mais pessoas saem do que chegam no Estado
Busca por melhores condições de vida estimula gaúchos a saírem do RS
Os gaúchos se orgulham de suas raízes e de sua cultura, porém, desde a década de 1970, mais pessoas deixam o Rio Grande do Sul e preferem viver em outros lugares do que vêm morar aqui. O motivo é quase sempre o mesmo, a busca por melhores oportunidades de emprego e renda e, consequentemente, melhores condições de vida. O saldo migratório negativo foi de 24,6 mil pessoas no período 1986 a 1991, passando para 39,5 mil entre 1995 a 2000 e atingindo o patamar de 74,7 mil entre 2005 e 2010. Neste último período, cinco das sete regiões do Rio Grande do Sul tiveram redução de população.

• Gaúchos procuram oportunidades pelo Brasil e pelo mundo

Este também foi o caso da gaúcha Estela Hoffmann, de 31 anos, que mora em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, desde o ano passado. No entanto, antes de se fixar no litoral catarinense, já andou por outras cidades do Estado e até na Europa, na busca de oportunidades profissionais e qualidade de vida.
A jornalista nasceu e se criou em Ajuricaba, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Quando concluiu a graduação em jornalismo, em 2009, mudou-se para Ijuí, para trabalhar na assessoria de comunicação de uma universidade local. Ela percebeu que não tinha perspectivas de crescimento profissional e que precisava de mais desafios. Foi quando, em 2013, surgiu a ideia de fazer intercâmbio em Dublin, na Irlanda, um desejo que tinha desde a faculdade. Queria aprimorar a língua inglesa e buscar novas experiências. Na Europa, trabalhava meio turno como au pair (trabalho de babá na casa de uma família), ganhando o mesmo salário que em Ijuí, onde trabalhava em turno integral. No outro turno, estudava inglês e tinha possibilidade de viajar. Como morava com a família que a empregava, não tinha despesas de moradia.

Depois de um ano, em 2014, retornou ao Brasil, para a casa dos pais, em Ajuricaba. Neste momento, uma certeza: queria morar em um local onde tivesse oportunidade de emprego e qualidade de vida. “E isto eu não tinha em Ajuricaba nem em Ijuí. A limitação profissional é grande no Interior”, destaca. Estela conta que, além disso, buscou um lugar que proporcionasse opções de lazer e, inclusive, que tivesse aeroporto, já que para ela era importante poder viajar com mais facilidade.

Foi a partir disso que ela deixou definitivamente de fazer parte dos índices populacionais de Ajuricaba e mudou-se para Balneário Camboriú. Foi morar com amigas que já viviam no litoral, e que também saíram do interior gaúcho, e concorreu a uma vaga no curso de Mestrado em Administração, na linha de pesquisa de Marketing, na Univali, em Biguaçu, na Grande Florianópolis. Depois da aprovação e de um ano de aulas, agora realiza estágio docência na mesma universidade, no campus de Balneário Camboriú, além de uns trabalhos como freelancer. 

Qual região mais perde e mais ganha?

Apenas as regiões Nordeste, da Serra Gaúcha, e Centro Oriental, no Vale do Rio Pardo, cresceram em número de habitantes. Entre 2005 e 2010, a Serra Gaúcha ganhou 21.230 habitantes, e o Vale do Rio Pardo, 2.173. As outras regiões perderam: a Metropolitana de Porto Alegre, 2.572 pessoas; Sudeste, em municípios como Pelotas e Rio Grande, 7.623 habitantes; Centro Ocidental, arredores de Santa Maria, perde da 9.170 pessoas. 

E é justamente a região de onde veio Estela a que mais perde população em todo o Estado. O Noroeste do Rio Grande do Sul, em cidades como Santo Ângelo, Santa Rosa e Ijuí, segundo dados da Fundação de Economia e Estatística (FEE), teve diminuição de 50.748 habitantes entre 2005 e 2010. Destes, 57% migraram para o Estado de Santa Catarina.

Porém, quando se leva em consideração, além do saldo migratório, a população total das regiões, é o Sudoeste do Estado que mais perde nativos. No mesmo período, a região dos municípios de Bagé, Uruguaiana e Santana do Livramento perdeu 4,09% da população.

Pedro Zuanazzi, coordenador do Núcleo de Demografia e Previdência da FEE, revela que uma das hipóteses da Fundação em relação aos motivos deste cenário é que estados de Santa Catarina e Paraná, por exemplo, que historicamente recebem gaúchos, estão em uma crescente econômica, ao contrário do que acontece no Rio Grande do Sul. E ele diz que no caso específico da região Noroeste, o fator geográfico facilita a migração, já que é próxima a esses estados. 

Zuanazzi lembra ainda que, há cerca de 50 anos, pessoas das regiões Noroeste e Sudoeste ocuparam terras nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, quando buscavam lavouras mais baratas para produzir. “São regiões agrícolas, que têm a produção agropecuária como principal fonte de renda.”

Quem são os emigrantes?

Dados da FEE revelam o perfil das pessoas que abandonam o Estado. A maioria está na faixa etária de 20 a 34 anos, 42,3% do total. Quase a metade, 40%, não concluiu o Ensino Médio. É também esta característica da população que faz a região de Caxias do Sul crescer. Com a indústria em crescimento, ela oferece vagas para chão de fábrica, o que atrai este perfil de trabalhador. Na taxa líquida, a região ganha 2,26% da população de baixa escolaridade e perde 0,21% de alta.

A região de Porto Alegre ganha população de todas as partes do Estado, porém, também perde para outros. Isto faz com que a taxa populacional esteja no vermelho. Os imigrantes têm baixa escolaridade, 57,5%, mesmo perfil dos emigrantes. E esta é uma característica diferente desta região: o perfil de quem entra e sai é muito semelhante.

Já o Noroeste é um caso de região exportadora de cérebros. É a região que mais perde população com alta escolaridade, apresentando taxa negativa de 6,62%. Outro dado curioso é que são pessoas, na sua maioria, com renda a partir de R$ 2.520,00. Este cenário expulsor de pessoas com alta escolaridade e renda pode ser explicado pela característica agrícola da região, com mais oportunidades nesta área que em outros setores.

Sudoeste segue perdendo

Comparando os dados atuais com os períodos de 1986 a 1991 e 1995 a 2000, percebe-se que a população vem reduzindo em todas as regiões. Zuanazzi lembra que esta queda também pode estar ligada a redução nos índices de natalidade. No Noroeste - região de onde mais saem pessoas -, o número de pessoas que deixam a região vem diminuindo. Entre 1986 e 1991 houve diminuição de 114 mil habitantes; entre 1986 a 1991, 99 mil; e 57 mil no último período, de 2005 a 2010. Porém, no Sudoeste, vem crescendo a perda de pessoas. Entre 1986 a 1991 foram menos 11.983 pessoas na região, número que passou para 19.886 entre 1995 e 2000, e 27.623 pessoas de 2005 a 2010.

Fonte! O chasque (reportagem) acima foi publicado no Correio do Povo de Porto Alegre / RS, no dia 27 de agosto de 2016. O retrato é do Sr. Samuel Maciel. Abra as porteiras clicando em